O Brasil acaba de dar um passo concreto para se tornar referência internacional em infraestrutura científica. A UNESCO, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) assinaram, em junho de 2026, uma carta de intenções para compartilhar a infraestrutura computacional brasileira com pesquisadores de países que têm menos acesso a recursos tecnológicos avançados. A iniciativa coloca o país em posição de protagonismo em um momento em que a corrida pela liderança em computação científica nunca foi tão intensa.
O que é o programa UNESRALE e como o Brasil entra nele
A cooperação se dá dentro do programa UNESCO Remote Access to Laboratory Equipment (UNESRALE), plataforma criada para ampliar o acesso global a infraestrutura científica de alta complexidade por meio do compartilhamento remoto de recursos e conhecimento.
Na prática, o CBPF passa a integrar a rede como um dos centros responsáveis por disponibilizar computação de alto desempenho (HPC), compartilhar expertise técnica e contribuir para a formação de pesquisadores. O Brasil assume o papel de parceiro estratégico da UNESCO na promoção da ciência aberta e acessível.
A coordenação no lado brasileiro ficará a cargo de Clécio De Bom, da Coordenação de Desenvolvimento Tecnológico do CBPF e responsável pelo Laboratório de Inteligência Artificial para a Física do instituto (Lab-IA/CBPF).
Quais pesquisas vão se beneficiar?
O foco da cooperação está em três áreas: Inteligência Artificial, Astrofísica e Geofísica. São campos que demandam grande capacidade de processamento de dados e que, historicamente, ficam restritos a países com orçamentos científicos mais robustos.
Com o acesso remoto aos laboratórios brasileiros, pesquisadores de países em desenvolvimento poderão rodar simulações, treinar modelos e colaborar com equipes do CBPF sem precisar de infraestrutura local equivalente. O modelo é simples na concepção e potente no impacto.
Por que esse movimento importa para o ecossistema de P&D no Brasil?
O investimento que tornou tudo isso possível
A cooperação com a UNESCO não surgiu do nada. Ela é resultado direto de uma série de investimentos acumulados nos últimos anos. Em junho de 2025, o MCTI e o CBPF inauguraram dois laboratórios na sede do instituto, na Urca (Rio de Janeiro): o Laboratório de Tecnologias Quânticas e o Laboratório de Inteligência Artificial para Física. Juntos, receberam cerca de R$ 46 milhões por meio da Finep. Somando os cinco projetos apoiados pelo MCTI via Finep desde 2023, o volume total chega a aproximadamente R$ 60,5 milhões.
Além disso, está em andamento a construção de uma nova unidade do CBPF no Parque Tecnológico da UFRJ, com investimento estimado em R$ 400 milhões do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT). O objetivo é transformar o instituto em um hub de física de classe mundial conectado diretamente ao ecossistema de inovação.
O Brasil como exportador de infraestrutura científica
Normalmente o debate sobre cooperação internacional coloca o Brasil na posição de receptor de tecnologia. Essa iniciativa inverte a lógica: o país passa a exportar infraestrutura e conhecimento, especialmente para o Sul Global. Para empresas que desenvolvem projetos de P&D no Brasil, esse contexto tem um significado prático: a base científica nacional está se tornando mais robusta, mais conectada e com maior capacidade de gerar pesquisa aplicada.
A computação quântica entra nesse cenário?
Sim, e de forma acelerada. O Brasil está construindo o Centro Internacional de Computação Quântica (CIQuanta) em João Pessoa (PB), em parceria com o MCTI, o governo da Paraíba e o Suzhou Quantum Center, da China. Com investimento de R$ 150 milhões e previsão de abrigar os primeiros computadores quânticos operacionais da América Latina, o projeto amplia o horizonte do que o país poderá oferecer em termos de infraestrutura para pesquisa avançada.
Tudo isso acontece no Ano Internacional da Ciência e Tecnologia Quântica, declarado pela ONU e abraçado pela UNESCO como marco simbólico para acelerar a democratização do conhecimento quântico no mundo.
O que esse movimento revela para empresas que fazem P&D
Para quem trabalha com pesquisa aplicada, desenvolvimento tecnológico ou busca acesso a fomentos e incentivos fiscais no Brasil, o sinal é claro: o ecossistema científico nacional está se estruturando em patamares mais altos. Mais infraestrutura disponível significa mais parcerias possíveis com institutos como o CBPF, mais editais de cooperação e maior legitimidade técnica para projetos que demandem computação de alto desempenho.
Empresas que souberem navegar nesse ambiente, identificando as oportunidades de colaboração e os mecanismos de financiamento disponíveis, sairão na frente.
Vale ficar de olho no que vem a seguir
A carta de intenções assinada é o primeiro passo formal de uma cooperação que ainda vai se desdobrar em protocolos técnicos, editais e parcerias específicas. O CBPF já indicou seu representante, e a UNESCO deve anunciar os próximos países parceiros em breve.
Para quem atua com inovação e P&D no Brasil, este é um dos movimentos mais relevantes do ano: silencioso nos grandes veículos, mas com impacto real na forma como a ciência brasileira se conecta ao mundo.




