Encerrando a discussão sobre os efeitos econômicos mais amplos da reforma, vale consolidar como a troca de tributos afeta, no fim das contas, a decisão mais concreta que qualquer empresa toma repetidamente: quanto cobrar por seus produtos e serviços.
Por que a mudança de sistema afeta preços
Como discutido ao longo desta série, o novo sistema combina alíquota nominal potencialmente diferente com crédito tributário mais amplo do que o sistema atual. Uma empresa que hoje forma seu preço considerando a carga tributária efetiva de PIS, COFINS, ICMS ou ISS precisa refazer essa conta considerando a nova estrutura de IBS e CBS, já que o resultado final pode ser maior, menor ou neutro dependendo do perfil específico de custo e crédito de cada negócio.
O efeito líquido depende do perfil de cada empresa
Como discutido ao tratar do impacto setorial da reforma, empresas com estrutura de custo intensiva em insumos que hoje geram pouco crédito tendem a se beneficiar do crédito amplo, o que pode permitir manter ou até reduzir preços mantendo a mesma margem. Empresas com estrutura mais concentrada em folha de pagamento, que não gera crédito em nenhum dos dois sistemas, tendem a sentir mais o peso de uma alíquota nominal potencialmente mais alta, pressionando preços para cima caso a margem precise ser preservada.
O repasse ao consumidor não é automático
Mesmo quando a carga tributária efetiva de uma empresa aumenta, isso não significa automaticamente que o preço ao consumidor final sobe na mesma proporção, já que a decisão de repasse depende também de fatores de mercado, como elasticidade de demanda e comportamento da concorrência. Empresas em mercados mais competitivos podem ter menos capacidade de repassar integralmente um eventual aumento de carga tributária, tendo que absorver parte desse impacto na própria margem.
Como simular esse impacto na prática
Vale reconstruir a estrutura de custo de cada linha de produto ou serviço, identificando quais insumos hoje geram crédito limitado e passarão a gerar crédito amplo, e simular a alíquota nominal esperada de IBS e CBS para aquele item específico, considerando também os regimes específicos discutidos anteriormente que podem reduzir a alíquota padrão para determinados produtos e serviços.
O momento certo para revisar a política de preços
Como a fase de testes de 2026 ainda não gera impacto financeiro real, discutido em diversos momentos desta série, a revisão de política de preços deveria estar concluída antes de 2027, quando a CBS passa a valer em alíquota plena e o impacto financeiro se torna concreto. Empresas que deixam essa revisão para depois de 2027 correm o risco de operar com preços desalinhados à nova estrutura de custo tributário por um período, até que a revisão finalmente aconteça.
Comunicação com clientes sobre eventuais ajustes
Empresas que precisarem ajustar preços em função da reforma devem preparar comunicação clara para seus clientes sobre a origem dessa mudança, especialmente em relações comerciais de longo prazo ou contratos que preveem revisão periódica, evitando que o ajuste pareça arbitrário quando, na realidade, decorre de uma mudança estrutural no sistema tributário que afeta toda a economia, não uma decisão isolada da empresa.
Vale tratar essa revisão como parte do planejamento mais amplo
A revisão de preços deveria ser a etapa final de todo o processo de planejamento tributário para 2027 discutido ao longo desta série, feita depois de já ter mapeado créditos, revisado contratos e simulado a carga tributária efetiva de cada linha de produto, garantindo que a decisão final de preço reflita uma análise completa, não uma estimativa apressada feita sob pressão de prazo.




