O Brasil acaba de dar um passo relevante na direção da soberania tecnológica em energia limpa. Em 16 de junho de 2026, a Petrobras e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) lançaram um edital conjunto de R$ 150 milhões para desenvolver, em solo nacional, um eletrolisador de porte industrial — equipamento capaz de converter água em hidrogênio de baixa emissão de carbono. A iniciativa, articulada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), coloca o tema da descarbonização industrial no centro da agenda de inovação do país.
O que é um eletrolisador e por que ele importa?
O eletrolisador é a máquina que separa as moléculas da água por meio de eletricidade e produz hidrogênio com baixa emissão de carbono. Esse hidrogênio tem papel crescente na descarbonização de indústrias pesadas, como siderurgia, química e refino de petróleo — setores nos quais a eletrificação direta ainda não é viável.
O problema: o Brasil conta com poucas empresas capazes de fabricar eletrolisadores e nenhuma produz o Stack, o componente central da máquina, onde acontece a reação que transforma a água em hidrogênio. É exatamente essa lacuna que o edital busca preencher.
Como o edital está estruturado?
Os R$ 150 milhões serão aportados integralmente como recursos não reembolsáveis, divididos igualmente entre as duas instituições:
- R$ 75 milhões da Finep, via Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT)
- R$ 75 milhões da Petrobras, por meio de sua verba de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (P&D,I)
As empresas beneficiárias também precisarão apresentar contrapartidas financeiras próprias.
O edital apoiará um projeto estruturante em rede, com exigências mínimas definidas:
- Ao menos três empresas envolvidas no desenvolvimento tecnológico
- Ao menos uma Instituição de Ciência e Tecnologia (ICT)
- Conteúdo nacional mínimo de 50%
- Desenvolvimento que vai da engenharia básica até um protótipo pré-comercial
O uso de tecnologias já conhecidas é permitido, desde que o projeto demonstre avanço tecnológico mensurável em relação aos equipamentos atualmente importados.
Qual é o objetivo além da tecnologia?
A questão central não é apenas fabricar o equipamento — é baratear a produção de hidrogênio por eletrólise, que ainda enfrenta custos elevados como principal barreira para adoção em larga escala. Produzir o eletrolisador no Brasil, com tecnologia nacional e menor dependência de importação, é o caminho para tornar o processo economicamente viável para mais setores industriais.
Para a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, o hidrogênio de baixo carbono representa uma das alternativas mais concretas para tornar indústrias como siderurgia, química e refino mais sustentáveis. O presidente da Finep, Luis Antonio Elias, reforçou que o objetivo vai além da produção de energia limpa: desenvolver as tecnologias que tornarão essa transformação possível.
Contexto: onde esse edital se encaixa na estratégia brasileira?
Este lançamento não é um evento isolado. Ele integra um movimento mais amplo de investimentos públicos em inovação e transição energética:
- A Petrobras prevê destinar US$ 4 bilhões para P&D no plano de negócios 2026-2030
- A Finep direcionou mais de R$ 12,5 bilhões ao financiamento de tecnologias verdes entre 2023 e 2025
- O Programa Nacional do Hidrogênio (PNH2), coordenado pelo Ministério de Minas e Energia, estabelece como meta consolidar o Brasil como o produtor mais competitivo de hidrogênio de baixo carbono do mundo até 2030
O edital está alinhado também com a agenda da COP30, prevista para 2025 em Belém, e com compromissos internacionais assumidos pelo Brasil em certificação e comércio de hidrogênio.
Quem pode participar?
O edital é voltado para empresas brasileiras interessadas em integrar uma rede de desenvolvimento tecnológico para o setor de hidrogênio. As propostas devem contemplar a formação de consórcios com ao menos três companhias e uma instituição científica, cobrindo todo o ciclo de desenvolvimento do equipamento.
Para empresas que já atuam em P&D, energia ou manufatura avançada, essa pode ser uma oportunidade de posicionamento em uma cadeia produtiva ainda em formação no país — e que tende a crescer conforme as exigências de descarbonização se intensificarem nos mercados nacional e internacional.
O que vem a seguir?
O edital marca um movimento de industrialização estratégica: o Brasil quer dominar a tecnologia, não apenas consumir o produto. Para empresas com capacidade de P&D e interesse no setor energético, o momento de se informar sobre os requisitos e buscar parceiros para compor os consórcios exigidos é agora.
As condições completas estão disponíveis no portal da Finep.




