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Entenda como a EMBRAPII compartilha o risco de projetos de P&D com sua empresa por meio do financiamento tripartite, quais setores são atendidos e o passo a passo para iniciar um projeto sem edital.
EMBRAPII compartilhamento de risco

EMBRAPII: como funciona o modelo de compartilhamento de risco e como sua empresa acessa projetos

Desenvolver uma tecnologia nova é caro, demorado e, quase sempre, incerto. Empresas que investem em pesquisa e desenvolvimento enfrentam o chamado “vale da morte”: o período entre a ideia e o produto validado, em que o risco tecnológico é alto e os recursos são escassos. A EMBRAPII foi criada para atuar exatamente nesse ponto, reduzindo o custo e o risco financeiro das empresas que querem inovar. Entender como o modelo de compartilhamento de risco funciona é o primeiro passo para saber se ele faz sentido para o seu negócio.


O que é a EMBRAPII?

A Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (EMBRAPII) é uma organização social qualificada pelo governo federal, criada em 2013 a partir de um contrato de gestão com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e o Ministério da Educação (MEC). Sua missão é conectar empresas industriais a instituições de pesquisa credenciadas, viabilizando projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) por meio de recursos não reembolsáveis, ou seja, dinheiro público que não precisa ser devolvido.

O modelo foi desenhado para ser diferente dos instrumentos tradicionais de fomento. Enquanto editais convencionais exigem longas etapas de submissão, análise e aprovação centralizada, a EMBRAPII permite que a empresa negocie diretamente com a instituição de pesquisa mais adequada ao seu desafio, sem esperar por janelas de abertura de chamada pública.


O que significa, na prática, compartilhar risco com a EMBRAPII?

O compartilhamento de risco é o princípio central do modelo EMBRAPII. A organização reconhece que projetos de inovação envolvem incerteza tecnológica, e que essa incerteza tem um custo real para as empresas. Ao aportar recursos não reembolsáveis, o governo federal assume parte desse custo, reduzindo a barreira de entrada para projetos de maior densidade tecnológica, que muitas empresas não realizariam sozinhas.

O foco é a fase pré-competitiva da inovação, classificada pelos níveis de maturidade tecnológica (TRL, na sigla em inglês) entre 3 e 6, ou seja, o período que vai da prova de conceito até a demonstração em ambiente relevante. É a fase de maior risco técnico e, por isso, a que mais afasta o investimento privado.

O resultado prático é que a empresa consegue desenvolver tecnologias com suporte financeiro e de infraestrutura de pesquisa de alto nível, sem assumir sozinha todos os custos de um projeto que pode não dar certo.


Como funciona o financiamento tripartite da EMBRAPII

O modelo de financiamento da EMBRAPII é estruturado em três partes, e cada ator contribui com aproximadamente um terço do valor total do projeto:

AtorContribuiçãoForma
EMBRAPIIAté 1/3 do projetoFinanceira, não reembolsável
Unidade EMBRAPII (ICT)Até 1/3 do projetoNão financeira (horas de pesquisadores, uso de laboratórios e equipamentos) ou financeira
Empresa parceiraAté 1/3 do projetoFinanceira

Em programas específicos, como os Polos de Inovação em fase de estruturação ou projetos de alto impacto, a participação da EMBRAPII pode chegar a 50% do valor total, para estimular o desenvolvimento de novas capacidades tecnológicas no país.

Esse desenho gera um efeito de alavancagem relevante. Segundo o Relatório Anual de 2024, para cada R$ 1 de recurso público investido pela EMBRAPII, outros R$ 1,84 foram mobilizados em contrapartidas das empresas e das Unidades de pesquisa, resultando em um fator de alavancagem de 2,84. Em 2024, foram contratados 640 projetos com 642 empresas, movimentando R$ 1,14 bilhão, dos quais R$ 399,8 milhões vieram do aporte não reembolsável da EMBRAPII.


Quais são as modalidades de acesso à rede EMBRAPII?

A rede opera por meio de três formatos principais, com diferentes níveis de maturidade tecnológica e estrutura de colaboração:

Unidades EMBRAPII: são grupos de pesquisa credenciados em instituições científicas e tecnológicas (universidades, institutos federais, centros de pesquisa privados). Cada Unidade tem uma área de competência definida e pode contratar projetos diretamente com empresas industriais. Atualmente, a rede conta com 90 Unidades credenciadas em todo o Brasil, com previsão de mais 13 novas Unidades em 2026.

Polos de Inovação: modalidade voltada principalmente para os Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia (IFs), com estrutura adaptada para aproximar o ensino técnico e tecnológico da demanda industrial regional.

Centros de Competência: são a modalidade mais recente e de maior complexidade. Operam em formato de inovação aberta, reunindo consórcios de empresas que compartilham agendas de pesquisa pré-competitiva de longo prazo em tecnologias emergentes. Há atualmente nove Centros de Competência ativos, com mais três previstos para 2026, em áreas como conectividade 5G/6G e hidrogênio de baixo carbono.


Quais empresas e setores podem usar a EMBRAPII?

Resposta direta: qualquer empresa com CNAE entre 05 e 33 (indústrias extrativas e de transformação), além de empresas de desenvolvimento de software nos CNAEs 62.01-5 e 62.03-1, pode acessar projetos via Unidades EMBRAPII. Não há restrição de porte: micro, pequenas, médias e grandes empresas, startups e empresas de base tecnológica estão todas habilitadas.

Em 2025, os setores que mais contrataram projetos foram agroindústria e alimentos e bebidas (15,7% do total). Entre as tecnologias habilitadoras mais demandadas, inteligência artificial respondeu por 31% dos projetos e integração de sistemas por 15%. Saúde, defesa, automotivo, celulose, farmacêutico e energia são outros setores com forte presença na rede. Empresas como BASF, Petrobras, Klabin, Bosch, Aché e Cristália já realizaram projetos com a EMBRAPII.

Desde 2013, a rede atendeu 2.654 empresas, contratou 3.914 projetos e mobilizou R$ 7,7 bilhões em investimentos. Em 2025, foram 811 novos projetos contratados, crescimento de 25,35% em relação a 2024.


Como sua empresa entra em um projeto EMBRAPII: o passo a passo

O processo não exige edital e não tem janela de abertura. A empresa pode iniciar o contato a qualquer momento, seguindo estas etapas:

  1. Identifique o desafio tecnológico que sua empresa quer resolver. Quanto mais específico for o problema, mais fácil é encontrar a Unidade adequada.
  2. Pesquise as Unidades EMBRAPII credenciadas no portal da organização (embrapii.org.br). Cada Unidade tem uma área de competência declarada: manufatura avançada, biotecnologia, sistemas embarcados, inteligência artificial, energias renováveis, entre outras.
  3. Entre em contato diretamente com a Unidade que tem competência técnica alinhada ao seu projeto. A negociação é bilateral, entre empresa e Unidade, sem intermediação burocrática da EMBRAPII central.
  4. Apresente o projeto e negocie o escopo. A Unidade avalia a viabilidade técnica e enquadra o projeto dentro das regras do modelo, verificando se está na fase pré-competitiva e se se enquadra nos critérios de financiamento.
  5. Formalize o contrato tripartite. Com o projeto aprovado, a empresa assina o contrato de cooperação e aporta sua contrapartida financeira. A EMBRAPII libera os recursos não reembolsáveis para a Unidade.
  6. Execute e acompanhe. A Unidade é responsável pela execução técnica e pela prestação de contas. A empresa recebe relatórios de avanço e participa das revisões do projeto.

O tempo entre o primeiro contato e a contratação varia conforme a complexidade do projeto, mas o modelo sem edital reduz significativamente o tempo de espera em comparação com outros instrumentos de fomento.


Propriedade intelectual: de quem fica a tecnologia?

Essa é uma das perguntas mais comuns de empresas que estão avaliando o modelo. A resposta é: depende do que for negociado, e há flexibilidade.

A EMBRAPII não impõe um formato único para a propriedade intelectual. As partes, empresa e Unidade, negociam a titularidade dos resultados antes da contratação. Em geral, como a empresa arca com parte dos custos e é quem tem a demanda de mercado, ela tende a ter participação relevante nos direitos gerados. Desde 2013, a rede acumula 1.494 pedidos de propriedade intelectual registrados, o que indica que o modelo efetivamente produz ativos tecnológicos com potencial de proteção.

A orientação geral da EMBRAPII é que a política de PI seja definida caso a caso, com base no nível de contribuição de cada parte e na estratégia de mercado da empresa.


Por onde começar

O ponto de entrada é o mapa de Unidades EMBRAPII disponível no site da organização. Com ele, é possível filtrar por área tecnológica e localização, identificando quais centros de pesquisa estão credenciados para o tipo de problema que sua empresa enfrenta.

Se o desafio tecnológico ainda não está bem definido, vale conversar com uma consultoria especializada em fomento à inovação antes de abordar as Unidades. A clareza sobre o problema a resolver é o que determina a qualidade da proposta e, consequentemente, a chance de viabilizar o projeto no modelo tripartite.

A EMBRAPII não é um instrumento para qualquer tipo de projeto: ela é adequada para desafios tecnológicos com grau real de incerteza, nos quais o resultado não está garantido de antemão. Quanto maior o risco tecnológico, mais sentido faz acionar o compartilhamento de risco que o modelo oferece.

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