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Muitas empresas industriais perdem o direito aos incentivos fiscais da Lei do Bem por classificar atividades de engenharia de rotina como P&D. Este artigo explica a diferença conceitual e prática entre as duas categorias, os critérios usados pelo MCTI para avaliação e os erros mais comuns que resultam em glosa ou não enquadramento.
diferença P&D engenharia de produto (2)

Diferença entre P&D e Engenharia de Produto na prática industrial e por que confundir os dois pode custar incentivos fiscais

Toda semana, empresas industriais brasileiras deixam dinheiro na mesa. Não por falta de investimento em tecnologia, mas por um equívoco de classificação: projetos que são, na prática, atividades de engenharia de rotina são registrados como P&D no FORMP&D e, ao passar pela avaliação técnica do MCTI, acabam glosados ou questionados. O resultado é a perda de incentivos fiscais que poderiam ter sido usados legitimamente, desde que os projetos corretos tivessem sido identificados.

Segundo dados do MCTI relativos ao ano-base 2024, mais de 4.200 empresas utilizaram os incentivos da Lei do Bem, direcionando R$ 51,6 bilhões a atividades de PD&I em aproximadamente 14 mil projetos, com renúncia fiscal estimada em R$ 12 bilhões. O volume é expressivo. E o risco também: uma auditoria do TCU, divulgada em fevereiro de 2025, identificou inconsistências que podem representar uma perda potencial de R$ 1,19 bilhão em arrecadação, parte delas relacionada a projetos com caracterização técnica insuficiente.

Entender a diferença entre P&D e Engenharia de Produto não é uma questão conceitual abstrata. É uma decisão com impacto direto no caixa da empresa.


O que separa P&D de Engenharia de Produto, afinal?

P&D, para fins da Lei do Bem (Lei 11.196/2005), compreende atividades de pesquisa básica dirigida, pesquisa aplicada e desenvolvimento experimental. O elemento central é a existência de incerteza técnica: o projeto precisa envolver um desafio cujo resultado não é previsível com base no conhecimento já dominado pela empresa.

Engenharia de Produto, por sua vez, cobre o conjunto de atividades necessárias para transformar uma especificação em um produto fabricável, dentro de parâmetros já conhecidos. Inclui escolha de componentes, dimensionamento, ajustes de layout, adaptações a normas técnicas e otimizações incrementais que seguem metodologias consolidadas.

A diferença prática entre as duas categorias pode ser resumida em uma pergunta: o resultado do trabalho era previsível, dado o conhecimento técnico disponível? Se sim, trata-se de engenharia. Se havia incerteza real sobre se o desempenho desejado seria alcançado, e foi necessário experimentar, testar hipóteses e potencialmente falhar antes de obter o resultado, há elementos de P&D.


O critério que o MCTI usa para avaliar: o risco tecnológico

O MCTI não avalia projetos pelo nome que a empresa dá a eles. A análise técnica busca identificar se há risco tecnológico real, ou seja, se o desenvolvimento poderia ter fracassado por razões técnicas e não apenas operacionais.

O próprio FAQ do MCTI é direto ao apontar que “a diferença entre as duas classificações está no risco envolvido nas atividades”. Um projeto de criação ou alteração de produto pode ser P&D ou engenharia, dependendo exatamente desse critério.

O que configura risco tecnológico

  • Hipóteses técnicas que precisam ser testadas e que podem não se confirmar
  • Testes e validações iterativas com resultados não garantidos de antemão
  • Necessidade de desenvolver conhecimento técnico novo para resolver um problema específico
  • Possibilidade de o projeto ser encerrado sem atingir o desempenho esperado

O que não configura risco tecnológico

  • Substituição de componentes por equivalentes com desempenho já conhecido
  • Ajustes de layout ou design sem exigência de experimentação técnica
  • Adaptações a partir de métodos e parâmetros já dominados pela equipe
  • Melhorias previsíveis com base em tecnologia consolidada

O MCTI é explícito ao tratar esse segundo grupo como engenharia de rotina, não elegível aos incentivos da Lei do Bem.


Exemplos concretos da linha tênue entre P&D e engenharia de rotina

A fronteira entre as duas categorias aparece com frequência em situações do dia a dia industrial. A tabela abaixo ilustra casos típicos e como tendem a ser classificados:

SituaçãoClassificação provávelPor quê
Desenvolvimento de novo material compósito com propriedades mecânicas específicas, exigindo ciclos de testes e reformulaçãoP&D (Desenvolvimento Experimental)Incerteza sobre viabilidade técnica; resultado não garantido
Substituição de material por alternativa disponível no mercado com especificação conhecidaEngenharia de rotinaSem risco tecnológico; resultado previsível
Desenvolvimento de novo processo de tratamento térmico para atingir dureza não obtida com rotas existentesP&D (Desenvolvimento Experimental)Exige experimentação; possibilidade de fracasso técnico
Ajuste de parâmetros de processo dentro de faixas já validadas para nova linha de produçãoEngenharia de rotinaAplicação de conhecimento dominado; sem incerteza técnica
Desenvolvimento de geometria de peça com comportamento dinâmico novo, validado via protótiposP&D (Desenvolvimento Experimental)Validação experimental com risco técnico real
Redesenho de produto para redução de custo com componentes equivalentes e mesmo desempenhoEngenharia de rotinaObjetivo comercial sem desafio técnico novo

O ponto de atenção está nos casos intermediários: projetos que envolvem testes e iterações, mas cuja incerteza técnica é baixa porque o caminho metodológico já é dominado. Esses casos tendem a ser os mais questionados durante a avaliação do MCTI.


Os erros de classificação mais comuns e o custo que geram

A maioria dos erros de enquadramento não vem de má-fé. Vem de uma compreensão imprecisa dos critérios técnicos e de uma tendência natural de as equipes de engenharia descreverem seus projetos a partir do esforço investido, e não da natureza técnica do trabalho realizado.

Os erros mais recorrentes identificados nas análises do MCTI incluem:

  1. Descrição genérica dos projetos, com foco em funcionalidades e entregas, sem explicitar o problema técnico, as hipóteses testadas e os resultados obtidos. Essa lacuna impede que o avaliador identifique o elemento tecnologicamente novo ou inovador do projeto.
  2. Inclusão de atividades de rotina dentro de projetos legítimos de P&D, diluindo o escopo e comprometendo o enquadramento do projeto como um todo. Controles de qualidade de conformidade produtiva, manutenção preventiva e ensaios de rotina são exemplos frequentes de atividades que aparecem em projetos declarados, mas não são elegíveis.
  3. Classificação de projetos originados de pesquisa de mercado, como adaptações de produtos para um novo cliente ou segmento, sem que haja incerteza técnica envolvida. Quando a demanda é comercial e a solução usa tecnologia conhecida, o projeto tende a não se sustentar na avaliação.
  4. Alocação de horas de profissionais que não atuaram em atividades de P&D, como equipes de produção, vendas ou suporte técnico. O FormP&D 2025, referente ao ano-base 2024, passou a exigir maior rigor na qualificação da equipe de PD&I, com documentação prévia das atribuições e habilidades envolvidas.

O custo concreto desses erros varia conforme o porte da empresa e o volume declarado, mas pode incluir desde a glosa de projetos específicos até questionamentos sobre a totalidade dos benefícios utilizados no período, com possíveis reflexos na apuração de IRPJ e CSLL.


Como documentar corretamente para não perder o enquadramento

A diferença entre P&D e Engenharia de Produto na prática industrial, muitas vezes, não está no que foi feito, mas em como foi documentado. Projetos tecnicamente válidos perdem o enquadramento quando não conseguem demonstrar, com evidências verificáveis, a existência de incerteza técnica, método experimental e resultado mensurável.

Uma documentação robusta para fins da Lei do Bem deve conter:

  • Descrição do problema técnico, com explicitação de por que ele não era solucionável com o conhecimento já disponível na empresa
  • Hipóteses formuladas e alternativas técnicas avaliadas, mostrando que houve raciocínio experimental e não apenas execução de um caminho conhecido
  • Registros de testes, protótipos e iterações, com resultados intermediários, incluindo os insatisfatórios
  • Indicadores de desempenho que comprovem o ganho técnico obtido em relação ao estado anterior
  • Horas dos pesquisadores e engenheiros envolvidos, com segregação clara em relação às atividades de rotina
  • Evidências de vínculo entre os dispêndios declarados e as atividades de P&D realizadas

O novo FormP&D 2025 reforça exatamente essa direção: o sistema passou a incluir orientações dinâmicas e alertas automáticos para inconsistências, sinalizando que a avaliação técnica do MCTI tende a ser cada vez mais rigorosa na verificação dessas evidências.


Vale revisar os projetos antes do FORMP&D?

Sim, e quanto antes, melhor. A revisão dos projetos com base nos critérios de risco tecnológico, antes do preenchimento do FormP&D, reduz o risco de glosa e permite identificar atividades elegíveis que muitas vezes passam despercebidas, como projetos de processo, automação com desafio técnico real ou desenvolvimento de materiais que seguem critérios de experimentação.

A Lei do Bem, ao completar duas décadas em 2025, consolidou-se como o principal instrumento fiscal de estímulo à inovação privada no Brasil. O TCU, em comparativo de quatorze benefícios fiscais federais, classificou-a como o de menor risco institucional entre todos os avaliados. Isso significa que o instrumento é sólido, mas exige que as empresas sejam igualmente rigorosas na qualificação dos seus projetos.

A diferença entre P&D e Engenharia de Produto na prática industrial não é apenas técnica: é uma distinção que define quem acessa o incentivo e quem perde o direito a ele por falta de precisão na classificação.

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