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Tecnologias emergentes 2026: o que o Fórum Econômico Mundial identificou como próximo passo real da inovação

Todo ano, o Fórum Econômico Mundial publica seu relatório de tecnologias emergentes. A lista de 2026, apresentada durante o Annual Meeting of the New Champions, em Dalian, na China, traz algo diferente das edições anteriores: em vez de apostas de longo prazo, o documento identifica tecnologias que estão deixando o laboratório para entrar em operação comercial nos próximos três a cinco anos. Quatro delas merecem atenção especial pela profundidade das transformações que podem provocar em saúde, alimentação e infraestrutura energética: vacinas personalizadas de mRNA contra câncer, simulação quântica para descoberta de medicamentos, fermentação de precisão e novos materiais aplicados à energia limpa.


O que são as tecnologias emergentes identificadas pelo WEF em 2026?

As tecnologias emergentes listadas pelo WEF em 2026 são inovações que, segundo o relatório, atingiram um ponto de inflexão: os avanços científicos estão se convertendo em aplicações reais, com infraestrutura, regulação e investimento suficientes para sustentar impacto em escala. O relatório completo traz dez tecnologias que abrangem energia, medicina, manufatura, inteligência artificial e segurança digital.

O critério de seleção considera potencial de impacto social e comercial significativo dentro de até cinco anos, capacidade de transformar sistemas existentes e grau de maturidade técnica já alcançado. Não se trata de especulação: as tecnologias selecionadas já têm ensaios clínicos avançados, parcerias farmacêuticas estabelecidas ou mercados em formação com dados mensuráveis.


Vacinas personalizadas de mRNA contra câncer: da pandemia ao oncológico

Como funcionam essas vacinas?

As vacinas personalizadas de mRNA contra câncer são sintetizadas a partir das mutações específicas do tumor de cada paciente. O princípio é treinar o sistema imunológico para reconhecer e atacar células que, até então, passavam despercebidas pelas defesas naturais do organismo. Diferentemente das vacinas convencionais, que atuam sobre um antígeno fixo, essas terapias são desenhadas individualmente, com base no sequenciamento genômico do tumor de cada pessoa.

Onde os ensaios clínicos estão agora?

O avanço mais expressivo vem da combinação da vacina mRNA-4157, desenvolvida pela Moderna em parceria com a Merck, com o imunoterápico pembrolizumab. Em um ensaio de fase 2b com pacientes de melanoma, a combinação reduziu o risco de recorrência em 44% e o risco de metástase à distância em 65%, em comparação ao uso isolado do pembrolizumab. Os dados de sobrevivência livre de recorrência em três anos mantêm a superioridade observada nas etapas anteriores, e o programa de fase 3 está em andamento com previsão de submissão regulatória em 2026.

No câncer de pâncreas, os resultados são igualmente promissores em uma doença historicamente refratária a tratamentos. Um estudo do Memorial Sloan Kettering publicado em abril de 2026 mostrou que, entre os pacientes cujo sistema imunológico respondeu à vacina personalizada de mRNA, quase 90% estavam vivos seis anos após o tratamento, um número expressivo diante de uma taxa de sobrevivência em cinco anos que, historicamente, fica em torno de 13%.

Ao todo, mais de 120 ensaios clínicos com vacinas de RNA contra o câncer estão ativos globalmente, cobrindo melanoma, pulmão, mama, próstata, cólon e tumores cerebrais.

Qual é o principal obstáculo para que se tornem padrão de tratamento?

A questão central não é técnica: é de acesso. O custo estimado por paciente pode chegar entre US$ 100 mil e US$ 300 mil, e a produção depende de infraestrutura de sequenciamento genômico que não está distribuída de forma uniforme pelo mundo. O relatório do WEF aponta que o sucesso dessas terapias como padrão de cuidado, e não como privilégio de sistemas de saúde bem financiados, depende de avanços em capacidade de manufatura, redução de custo e acesso equitativo à infraestrutura de sequenciamento.


Simulação quântica para descoberta de medicamentos: o que muda na pesquisa farmacêutica

O que é simulação quântica no contexto farmacêutico?

Simulação quântica é o uso de computadores quânticos para modelar o comportamento de moléculas diretamente a partir de princípios físicos. O que isso significa na prática: computadores clássicos aproximam o comportamento molecular; computadores quânticos conseguem simular as interações eletrônicas com muito mais fidelidade. Para a indústria farmacêutica, isso representa a possibilidade de prever com mais precisão como um candidato a medicamento vai se dobrar, se encaixar e interagir com seu alvo biológico antes de qualquer experimento laboratorial.

O espaço químico de compostos potencialmente terapêuticos é estimado em 10^60 moléculas, um número que excede completamente a capacidade exploratória de métodos computacionais clássicos. A simulação quântica, especialmente em arquiteturas híbridas que combinam processamento quântico e clássico, começa a abrir partes desse espaço de forma viável.

Quais são as evidências de uso real?

Em março de 2026, a Cleveland Clinic e a IBM publicaram o primeiro fluxo de trabalho híbrido quântico-clássico capaz de simular a estrutura eletrônica da miniproteína Trp-cage, com 303 átomos. Trata-se do primeiro exemplo documentado de simulação quântica em escala de proteínas, um marco relevante para o design estrutural de medicamentos.

Em junho de 2025, a IonQ, em parceria com a AstraZeneca, AWS e NVIDIA, demonstrou um fluxo de trabalho de química computacional acelerado por processamento quântico, com melhora de mais de 20 vezes na velocidade de simulação molecular. A Boehringer Ingelheim colabora com a PsiQuantum em aplicações de estrutura eletrônica; a Merck KGaA e a Amgen trabalham com a QuEra para prever atividade biológica de candidatos a fármacos.

A McKinsey estima que a computação quântica aplicada à indústria farmacêutica pode gerar entre US$ 200 bilhões e US$ 500 bilhões em valor até 2035. Oito das dez maiores empresas biofarmacêuticas do mundo já têm projetos-piloto em andamento ou parcerias firmadas com provedores de tecnologia quântica.

Qual é o estágio atual do mercado?

O mercado de computação quântica aplicada à descoberta de medicamentos está em fase de formação. As estimativas variam entre as consultorias, mas convergem para a ordem de US$ 400 a 500 milhões em 2025, com projeções que apontam para US$ 600 milhões a US$ 1,8 bilhão até 2035, dependendo do ritmo de maturação do hardware. A vantagem quântica verificada ainda é restrita a tarefas específicas, e os dispositivos atuais permanecem na era NISQ (noisy intermediate-scale quantum), com limitações de profundidade de circuito e tempo de coerência. O caminho prático, pelo menos até 2028, passa por arquiteturas híbridas.


Fermentação de precisão: biotecnologia que reinventa a produção de alimentos e ingredientes

O que é fermentação de precisão?

Fermentação de precisão é a combinação de fermentação microbiana tradicional com engenharia genética para programar microrganismos como leveduras, fungos e bactérias a produzir proteínas, enzimas, gorduras e outros compostos específicos com alto grau de pureza e eficiência. O processo dispensa o animal como intermediário: é possível produzir proteínas do leite, clara de ovo, colágeno e hemoglobina diretamente em biorreatores, com controle preciso sobre composição e rendimento.

Em termos ambientais, a fermentação de precisão utiliza, em comparação à produção animal convencional, entre 74% e 99% menos água, entre 77% e 91% menos terra e emite entre 37% e 87% menos gases de efeito estufa, dependendo do ingrediente e do método comparado.

Quem está operando em escala comercial?

A Perfect Day comercializa proteínas do leite produzidas por fermentação desde 2020. A empresa The Every Co. lançou em 2023 o primeiro produto líquido à base de proteínas de ovo produzidas por fermentação. A Ginkgo Bioworks abriu em fevereiro de 2025 um serviço de foundry para ingredientes alimentares, atendendo 28 empresas clientes na produção de proteínas, enzimas e compostos de sabor em escala piloto. A DSM-Firmenich obteve aprovação da FDA e da União Europeia para uma lactase produzida por fermentação de precisão, lançada em março de 2025.

A Formo, empresa alemã, recebeu uma facilidade de quasi-equity de 35 milhões de euros do Banco Europeu de Investimentos em janeiro de 2025 para escalar a produção de proteínas lácteas e de ovo sem animal.

Qual é o tamanho do mercado e para onde ele vai?

O mercado global de fermentação de precisão foi estimado entre US$ 3,5 bilhões e US$ 5 bilhões em 2025, dependendo da fonte e metodologia. As projeções para 2033-2035 variam amplamente, entre US$ 75 bilhões e US$ 150 bilhões, refletindo incerteza sobre o ritmo de adoção regulatória e queda de custos. O CAGR projetado pelas principais consultorias fica entre 31% e 48% ao ano, o que coloca a fermentação de precisão entre os mercados de maior crescimento projetado na bioeconomia global.

O principal gargalo permanece sendo o custo de escala. Biorreatores de grande volume, otimização de linhagens microbianas e processamento downstream ainda encarecem a produção em comparação com a proteína animal convencional. A América do Norte lidera o mercado, mas a Ásia-Pacífico é a região com crescimento mais acelerado projetado, com destaque para Singapura como hub regional de P&D e regulação.


Novos materiais para energia limpa: resfriamento passivo e extração direta de lítio

O relatório do WEF destaca dois materiais com potencial de redefinir partes do sistema energético global: os materiais de resfriamento radiativo passivo e as tecnologias de extração direta de lítio.

Resfriamento radiativo passivo

Materiais de resfriamento radiativo passivo resfriam superfícies, como telhados e equipamentos, sem consumir eletricidade. Eles funcionam refletindo a luz solar e emitindo calor diretamente para a atmosfera por meio de uma janela de transmissão no espectro infravermelho. Em climas quentes, a aplicação desses materiais em edifícios pode reduzir significativamente a demanda por ar-condicionado, aliviando a carga sobre redes elétricas e diminuindo emissões de carbono associadas ao resfriamento artificial.

A tecnologia existe há anos em laboratório, mas avanços recentes em síntese de materiais, especialmente em compósitos poliméricos e metamateriais, estão tornando a produção em escala industrial mais viável. O impacto esperado é maior em regiões tropicais e subtropicais, que concentram as maiores taxas de crescimento em consumo de energia para resfriamento.

Extração direta de lítio

O lítio é insumo fundamental para baterias de veículos elétricos e armazenamento de energia em larga escala. Os métodos convencionais de extração por evaporação de salmoura levam de 12 a 18 meses e consomem grandes extensões de terra e água. A extração direta de lítio usa materiais especializados, como adsorventes seletivos e membranas, para separar o lítio da salmoura em horas, com consumo de terra e água muito menores.

Além da redução de impacto ambiental, a extração direta de lítio abre fontes antes consideradas inviáveis economicamente, como salmouras de poços de petróleo e aquíferos geotérmicos, ampliando a base geográfica de produção e reduzindo a dependência de poucos países fornecedores.


O padrão por trás das quatro tecnologias

O que conecta vacinas de mRNA, simulação quântica, fermentação de precisão e novos materiais não é apenas o fato de serem tecnologias sofisticadas. O relatório do WEF identifica um padrão comum: todas elas caminham na direção de sistemas mais distribuídos, personalizados e eficientes em recursos. A vacina de mRNA é desenhada para o tumor de uma única pessoa. A simulação quântica modela a molécula exata que vai interagir com um alvo específico. A fermentação de precisão produz ingredientes sem depender de geografias favoráveis à criação animal. O resfriamento passivo e a extração direta de lítio reduzem a dependência de infraestrutura centralizada para energia e insumos.

O WEF ressalva que o sucesso de todas essas tecnologias ainda depende de fatores que vão além da maturidade técnica: prontidão de infraestrutura, marcos regulatórios claros, capacidade de manufatura em escala e confiança pública. São variáveis que não se resolvem no laboratório.


O que observar nos próximos dois anos

As vacinas de mRNA para melanoma têm submissão regulatória prevista para 2026. A simulação quântica híbrida deve alcançar vantagem verificada em tarefas específicas de otimização molecular até 2027-2028, segundo projeções baseadas no roadmap de hardware da IBM. O mercado de fermentação de precisão deve dobrar de tamanho até 2026-2027, impulsionado por aprovações regulatórias em novos mercados e pela entrada de grandes grupos alimentícios em parcerias com startups de biotecnologia.

Para quem acompanha inovação de perto, o relatório do WEF de 2026 funciona menos como lista de apostas e mais como mapa de onde o investimento global em P&D está se concentrando agora, com evidências suficientes para justificar atenção estratégica.

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