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A União Europeia lançou um pacote completo para garantir autonomia em semicondutores, IA, cloud e open source. Entenda o que são o Chips Act 2.0 e o CADA e o que o Brasil pode aprender com essa estratégia.
autonomia tecnológica europeia

Autonomia tecnológica europeia: o que o Brasil pode aprender com o pacote da União Europeia

Em junho de 2026, a Comissão Europeia apresentou o European Technological Sovereignty Package, um conjunto de medidas legislativas para reduzir a dependência do bloco de fornecedores externos em tecnologias consideradas estratégicas: semicondutores, inteligência artificial, computação em nuvem e software de código aberto. A iniciativa não é apenas uma resposta europeia a um problema europeu. Para países como o Brasil, que também carregam dependências estruturais profundas nessas mesmas áreas, o pacote funciona como um espelho e, mais do que isso, como um roteiro.

O que é o European Technological Sovereignty Package?

O pacote europeu de soberania tecnológica é um conjunto de medidas elaborado pela Comissão Europeia com o objetivo de garantir que o bloco possa desenvolver, implantar e proteger as tecnologias das quais seus cidadãos dependem — sem precisar recorrer a fornecedores externos para isso.

A motivação é concreta: a Europa continua fortemente dependente de empresas americanas e asiáticas para serviços de cloud, componentes de IA e semicondutores avançados. Ao mesmo tempo, a demanda por capacidade computacional cresce em ritmo acelerado com a expansão da IA, tornando essa dependência um risco econômico e geopolítico de primeira ordem.

O pacote se organiza em quatro componentes principais:

  1. Chips Act 2.0 (Regulamento Circuitos Integrados 2.0)
  2. Cloud and AI Development Act (CADA)
  3. EU Open Source Strategy
  4. Strategic Roadmap for Digitalisation and AI in Energy

Os quatro pilares do pacote

Chips Act 2.0: produção europeia de semicondutores

A primeira versão do Chips Act, em vigor desde 2023, foi a resposta inicial da UE às vulnerabilidades na cadeia global de abastecimento de semicondutores. O problema persiste: a Europa ainda detém apenas 9% do mercado global de chips, contra uma meta de 20% estabelecida para 2030.

O Chips Act 2.0 busca ampliar a capacidade industrial europeia em semicondutores avançados, especialmente os voltados para aplicações de IA, que devem representar mais de 70% do mercado global do setor até 2030. O regulamento prevê aceleração de licenciamentos, aprofundamento da cooperação com parceiros estratégicos e a criação de um rótulo de excelência para regiões europeias de semicondutores — um mecanismo de atração de investimentos produtivos.

Cloud and AI Development Act (CADA): infraestrutura computacional própria

O CADA tem um objetivo ambicioso: triplicar a capacidade de data centers na Europa. A proposta reconhece que treinar e implantar modelos de inteligência artificial exige infraestrutura computacional massiva, e que depender de provedores externos para isso significa transferir soberania digital a terceiros.

A medida visa criar condições para que empresas, cidadãos e governos europeus tenham acesso a alternativas de cloud de origem europeia — com controle sobre dados, custos e continuidade de serviços.

EU Open Source Strategy: autonomia pelo software livre

A estratégia de código aberto parte de uma base já expressiva: a comunidade de desenvolvedores open source na Europa ultrapassa três milhões de colaboradores. O plano busca ampliar alternativas abertas em domínios prioritários como cloud, IA, internet, cibersegurança e semicondutores, além de fomentar o uso de soluções open source nas administrações públicas por meio de diretrizes de contratação e padrões de interoperabilidade.

A lógica é que o software aberto reduz a dependência de fornecedores proprietários e fortalece ecossistemas locais de inovação.

Roteiro para Digitalização e IA na Energia

O quarto componente trata da transição digital no setor energético, promovendo a adoção de tecnologias digitais e de IA para aumentar eficiência, resiliência e sustentabilidade. A digitalização da infraestrutura energética é tratada como condição para que a Europa avance na descarbonização sem perder competitividade industrial.


O que o Brasil já faz — e onde ainda fica atrás

O Brasil não está parado. Em 2025, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) investiu R$ 267 milhões em projetos estratégicos de TICs, um crescimento de 116% em relação ao ano anterior. Para 2026, a previsão é de mais de R$ 1,2 bilhão do FNDCT destinados a semicondutores, somados a recursos da Finep e do setor privado.

No campo dos chips, o Brasil criou o Programa Brasil Semicondutores (Brasil Semicon), instituído pela Lei 14.968/2024, que amplia incentivos, simplifica regras e autoriza o BNDES e a Finep a estruturar apoio financeiro ao setor. Há também o Programa de Formação em Semicondutores, que capacita cerca de 1.860 profissionais com investimento superior a R$ 150 milhões e meta de formar 4 mil engenheiros e designers até 2028.

Apesar dos avanços, os números mostram o tamanho do desafio: mais de 85% dos chips usados no Brasil são importados. A meta do governo é dobrar a participação brasileira na cadeia global de semicondutores, de 1% para 2%, até 2033.

O que diferencia a abordagem europeia

A diferença entre a resposta europeia e a brasileira não está apenas nos volumes de investimento. Está na arquitetura da política pública. O pacote da UE combina, num único movimento, regulação, investimento em infraestrutura, estratégia para open source e integração com a agenda de energia sustentável. Não são iniciativas isoladas: são peças de uma engrenagem pensada para funcionar em conjunto.

No Brasil, os programas existem, mas ainda operam de forma fragmentada. O PADIS cuida dos semicondutores. A Finep financia P&D. A Lei de TICs dá incentivos à fabricação. A Nova Indústria Brasil aponta para digitalização. O que falta, e o que a Europa demonstra ser possível, é a articulação dessas peças em uma visão estratégica unificada, com metas mensuráveis, governança clara e integração entre setores.


Por que isso importa para empresas brasileiras que investem em P&D

Para as empresas que operam no Brasil e buscam incentivos fiscais para atividades de pesquisa e desenvolvimento, como a Lei do Bem, o Programa Brasil Semicon ou os editais da Finep, o movimento europeu tem implicações práticas.

Primeiro, o Chips Act 2.0 e o CADA vão remodelar as cadeias globais de fornecimento de tecnologia. Empresas que hoje dependem de soluções de cloud, semicondutores ou plataformas de IA de origem norte-americana ou asiática podem encontrar, nos próximos anos, novos parceiros tecnológicos europeus com incentivo de compra pública e conformidade regulatória mais alinhada ao padrão GDPR.

Segundo, o modelo europeu de open source pode acelerar a adoção de alternativas abertas em empresas brasileiras que desenvolvem tecnologia própria. Software de código aberto reduz custos de licenciamento, permite customização e fortalece o componente de desenvolvimento original, que é justamente o que as políticas de incentivo à inovação no Brasil reconhecem como atividade elegível.

Terceiro, e mais estrutural, o debate sobre soberania tecnológica está se tornando um critério de competitividade geopolítica. Países e blocos que controlam suas infraestruturas digitais terão vantagem na atração de investimentos, na proteção de dados estratégicos e na capacidade de negociar acordos tecnológicos em posição de igualdade.


O que o Brasil pode fazer agora

A pergunta relevante não é se o Brasil deveria construir sua própria soberania tecnológica. Já existe consenso sobre isso. A pergunta é como estruturar essa construção de forma coerente e eficiente.

O pacote europeu oferece ao menos três lições aplicáveis:

  • Integração vertical da política pública: unir regulação, financiamento, formação e compras governamentais em um único guarda-chuva estratégico, com metas compartilhadas entre ministérios.
  • Aposta no open source como vetor de autonomia: investir na comunidade de código aberto brasileira como alternativa real a fornecedores proprietários estrangeiros em setores críticos.
  • Conexão com a agenda de energia e sustentabilidade: a digitalização da infraestrutura energética é também um campo fértil para P&D nacional, com potencial de atrair financiamento climático internacional.

O Brasil tem pesquisa de qualidade, tem programas de fomento funcionando e tem empresas inovadoras dispostas a investir. O que o exemplo europeu mostra é que esses ativos precisam ser organizados em torno de uma estratégia de longo prazo com compromissos legislativos claros, e não apenas como respostas pontuais a oportunidades ou crises de abastecimento.

A soberania tecnológica não se constrói por decreto. Mas também não se constrói sem ele.

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