O Google encomendou à Intel a fabricação de mais de três milhões de unidades de processamento tensorial, os TPUs, com entrega prevista para 2028. A informação, divulgada pelo The Information em junho de 2026, movimentou o mercado financeiro de forma imediata: as ações da Intel subiram mais de 9% no pregão seguinte ao anúncio. Mas o impacto real vai muito além da variação acionária. O acordo sinaliza uma mudança estrutural na forma como as grandes empresas de tecnologia pensam o abastecimento de chips de inteligência artificial.
O que o Google encomendou à Intel?
O Google, por meio da Alphabet, fez um pedido à Intel para produzir mais de 3 milhões de TPUs (Tensor Processing Units) até 2028. Os TPUs são chips desenvolvidos internamente pelo Google para treinar e executar modelos de inteligência artificial, e respondem por uma fatia crescente da receita do negócio de nuvem da empresa. A Intel atuaria como segunda fonte de fabricação, complementando a Taiwan Semiconductor Manufacturing Company (TSMC), fornecedora histórica do Google para essa linha de produtos.
Além do acordo com a Alphabet, a Nvidia também estaria avaliando as capacidades de fabricação da Intel para um possível contrato de chips de IA, segundo o mesmo relatório. Os dois movimentos, combinados, representam uma virada de percepção sobre a Intel Foundry, o braço de fabricação por contrato da empresa.
Por que a TSMC já não é suficiente para a demanda atual?
A TSMC continua sendo a maior e mais avançada fundição de semicondutores do mundo, com cerca de 75% de participação no mercado de fabricação de ponta. No primeiro trimestre de 2026, a empresa registrou US$ 35,9 bilhões em receita de fundição, contra US$ 5,4 bilhões da Intel Foundry no mesmo período. A diferença de escala é expressiva.
O problema, porém, não é de qualidade: é de capacidade. A explosão da demanda por chips de IA, puxada sobretudo pela Nvidia e pelos grandes modelos de linguagem, deixou a TSMC operando próxima ao limite de sua capacidade produtiva. Empresas que antes tinham a TSMC como único fornecedor passaram a enfrentar filas de espera e incerteza no abastecimento. Foi essa pressão que abriu espaço para a Intel reassumir um papel relevante no mercado de fundição.
Intel Foundry: recuperação real ou aposta de risco?
A Intel vive um momento de reposicionamento acelerado. Após perder a liderança em fabricação para a TSMC ao longo dos anos 2010, a empresa investiu bilhões na modernização de suas fábricas e no desenvolvimento de novos processos de fabricação. O processo 18A, equivalente a 1,8 nanômetros, já está em produção em volume nas instalações do Arizona, e utiliza transistores Gate-All-Around e uma rede de fornecimento de energia pelo verso do chip, tecnologias que colocam a Intel em posição técnica competitiva.
Os números de rendimento (yield) ainda refletem o estágio inicial da curva de maturação. O índice de aproveitamento do processo 18A estava em torno de 55% em meados de 2025, com meta interna de 65% a 70% até o final do ano. Para comparação, o processo equivalente da TSMC operava com yield de aproximadamente 70% no início de 2026. A diferença existe, mas está sendo reduzida.
O próprio presidente da TSMC reconheceu publicamente, em uma chamada de resultados recente, que vê a Intel Foundry como uma concorrente séria, afirmando não subestimá-la.
Diversificação como estratégia industrial, não como plano B
O acordo entre Alphabet e Intel não representa uma desconfiança no trabalho da TSMC. Representa algo mais estrutural: a compreensão de que depender de um único fabricante de chips, localizado em Taiwan, é um risco geopolítico e operacional que empresas de tecnologia com escala global não podem mais ignorar.
Os governos também chegaram a essa conclusão. Os Estados Unidos aprovaram o CHIPS Act, destinando bilhões de dólares para estimular a fabricação doméstica de semicondutores. A Intel foi uma das principais beneficiárias desse programa, além de ter garantido investimentos do governo Trump e de empresas como Nvidia e SoftBank para expansão de suas operações. A fábrica Terafab, no Texas, desenvolvida em parceria com Elon Musk, é outro sinal dessa estratégia de reindustrialização semicondutora nos EUA.
O Google, ao diversificar sua base de fornecedores de TPUs entre TSMC e Intel, reduz exposição a riscos de concentração geográfica e garante capacidade de produção para sustentar o crescimento de sua infraestrutura de IA nos próximos anos.
Qual é o próximo chip do Google que a Intel vai fabricar?
O chip em questão é o “Icefish”, nome interno para a geração seguinte dos TPUs do Google após os modelos de oitava geração apresentados na Google Cloud Next 2026. A linha atual conta com o TPU 8t, voltado para treinamento de modelos, e o TPU 8i, para inferência. O Icefish representa a evolução dessa plataforma e deve concentrar a maior parte do volume encomendado para 2028.
Além da Intel, o Google também negocia com a Samsung para fabricação de versões do Icefish, segundo reportagens da Reuters. A MediaTek estaria envolvida em aspectos de arquitetura, não de fabricação. O movimento confirma que o Google está construindo um ecossistema de produção de chips distribuído entre múltiplos parceiros, em vez de apostar em um único fornecedor.
O que muda no equilíbrio de poder entre os fabricantes de chips
A indústria de semicondutores começa 2026 com uma configuração diferente da que existia há dois anos. Três tendências se consolidam:
- Fim do monopólio operacional da TSMC: a empresa segue como líder tecnológica, mas já não é a única opção viável para produção em escala de chips avançados de IA.
- Reabilitação da Intel como fundição: o acordo com a Alphabet é o maior sinal público de que a Intel Foundry voltou a ser levada a sério por clientes externos de primeiro nível.
- Chips proprietários como vantagem competitiva: Google, Amazon, Microsoft e Meta investem em chips de IA desenvolvidos internamente para reduzir dependência da Nvidia e controlar custos de inferência e treinamento.
Essa reconfiguração beneficia empresas que precisam de poder computacional para IA em escala, pois amplia as opções de fornecimento e tende a aumentar a competição por capacidade produtiva no longo prazo.
O que esse movimento indica para os próximos anos
O contrato da Alphabet com a Intel é um evento pontual com implicações de longo alcance. Ele confirma que a demanda por chips de IA vai superar a capacidade instalada atual pelo menos até o final desta década, e que empresas com escala para isso estão dispostas a financiar a expansão de novas fundições, mesmo com riscos de yield e execução.
Para o ecossistema de inovação global, o recado é claro: semicondutores deixaram de ser infraestrutura de segundo plano e passaram a ser ativos estratégicos disputados com a mesma intensidade que energia, dados e talento. Quem controla a fabricação de chips controla, em grande medida, o ritmo da próxima geração de avanços em inteligência artificial.





