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A Austrália foi o primeiro país a proibir redes sociais para menores de 16 anos e, seis meses depois, enfrenta um problema: a lei não está sendo cumprida pelas plataformas. A resposta do governo é endurecer as sanções e investigar formalmente Meta, Google e outros gigantes. O movimento sinaliza uma tendência global de regulação mais dura sobre big techs.
regulação de redes sociais para menores

Austrália quer dobrar multas para plataformas que ignoram a proibição de redes sociais para menores

Seis meses depois de se tornar o primeiro país do mundo a proibir o uso de redes sociais por menores de 16 anos, a Austrália se vê diante de um problema que os especialistas já previam: a lei existe, mas as plataformas não a estão cumprindo. A resposta do governo de Canberra é aumentar a pressão sobre as big techs, com multas que podem superar os 49,5 milhões de dólares australianos por violação, e investigar formalmente ao menos cinco das maiores plataformas do mundo.

O que diz a lei australiana e por que ela está sendo reforçada?

A lei australiana de proibição de redes sociais para menores entrou em vigor em 10 de dezembro de 2025. Desde então, plataformas como Instagram, TikTok, YouTube, Facebook, Snapchat, X, Reddit, Threads, Kick e Twitch estão obrigadas a impedir que usuários com menos de 16 anos criem ou mantenham contas ativas no país. A responsabilidade de fiscalização recai sobre as próprias plataformas, não sobre os jovens ou seus responsáveis.

O problema é que a fiscalização falhou. Um estudo publicado no British Medical Journal, conduzido com 408 adolescentes australianos, revelou que 85% dos jovens entre 12 e 15 anos continuavam ativos nas plataformas três meses após a proibição entrar em vigor. O mecanismo mais comum para burlar o sistema foi simples: declarar uma idade falsa ou enviar uma selfie aceita automaticamente pelos algoritmos de verificação como prova de maioridade.

O comissário de eSafety, órgão federal responsável pela fiscalização da internet na Austrália, confirmou que cerca de um terço dos menores ainda acessava as plataformas sem qualquer obstáculo real. Com base nesses dados, o governo decidiu endurecer as sanções e preparar ações formais contra as plataformas que descumpriram a norma.

Por que as multas mais altas são uma resposta previsível?

A lógica por trás do endurecimento das penalidades é direta: quando a multa representa uma fração mínima do faturamento de uma grande plataforma, o custo do descumprimento pode ser visto como aceitável. Para empresas com receitas anuais na casa dos bilhões de dólares, uma multa de dezenas de milhões pode ser contabilizada como despesa operacional.

A ministra das Comunicações, Anika Wells, foi direta ao declarar que “as leis australianas sobre redes sociais não estão falhando, mas não estão sendo respeitadas pelos gigantes da tecnologia”. A frase sintetiza a frustração do governo com a postura das plataformas e explica a lógica por trás da proposta de dobrar as sanções: aumentar o custo do descumprimento até que ele supere o custo do investimento em sistemas de verificação de idade eficazes.

Quais plataformas estão na mira da Austrália?

A ministra Anika Wells confirmou que o governo prepara ações formais contra pelo menos cinco grandes plataformas. As investigações se concentram em:

  • Instagram (Meta)
  • Facebook (Meta)
  • Snapchat
  • TikTok
  • YouTube (Google)

A acusação central é que essas plataformas permitiram que menores de idade que já haviam declarado explicitamente ter menos de 16 anos fizessem novas tentativas de verificação até conseguir acesso, além de não terem adotado medidas suficientes para impedir a criação de novas contas por usuários nessa faixa etária.

A Austrália como laboratório global de regulação de big techs

Desde que a lei entrou em vigor, o mundo acompanha o experimento australiano com atenção. A comissária de Segurança Online do país, Julie Inman Grant, resumiu a posição da Austrália ao descrever a medida como “a primeira peça do dominó” em um processo global de regulação mais rígida das plataformas digitais.

O movimento australiano é relevante não apenas pelo conteúdo da lei, mas pela metodologia adotada: colocar a responsabilidade de cumprimento sobre as plataformas, e não sobre os usuários ou suas famílias. Esse princípio de responsabilização corporativa é o que torna o modelo interessante para outros países que observam os resultados.

O relatório do eSafety publicado em março de 2026 trouxe um dado que ilustra a dimensão da implementação: mais de cinco milhões de contas pertencentes a usuários menores de idade foram removidas desde dezembro de 2025. Ainda assim, uma proporção significativa de crianças australianas continua acessando as plataformas proibidas, o que motivou a escalada regulatória.

O que outros países estão fazendo com a regulação de redes sociais para menores?

O movimento australiano abriu uma janela política para outros países adotarem medidas semelhantes. O mapa da regulação de redes sociais para menores está em expansão rápida:

PaísMedidaStatus
AustráliaProibição total para menores de 16 anos, com multas de até AU$ 49,5 milhõesEm vigor desde dezembro de 2025
BrasilVinculação de contas de menores às de seus responsáveisEm vigor desde março de 2026
FrançaDebate no Senado sobre proibição para menores de 15 anosEm discussão
Reino UnidoEstudo de restrições para menores de 16 anosEm análise
MalásiaAnúncio de banimento de contas para menores de 16 anos a partir de 2026Em implementação
Alemanha, Itália, Grécia, EspanhaEstudos de restrições similares à australianaEm consideração

A tendência aponta para um consenso gradual entre governos de que a autorregulação das plataformas, modelo que predominou por quase duas décadas, não produziu os resultados esperados em termos de proteção de crianças e adolescentes online.

O que esse movimento revela sobre o futuro da regulação das big techs?

O caso australiano coloca em evidência uma tensão estrutural entre governos e plataformas digitais que vai além da proteção de menores. Quando uma empresa como Meta ou Google opera em dezenas de países simultaneamente, o cumprimento de legislações nacionais específicas exige investimento deliberado em infraestrutura de verificação, moderação local e compliance regulatório.

O que a Austrália está sinalizando é que o modelo de tolerância regulatória chegou ao limite. Ao investigar formalmente as principais plataformas e propor sanções mais pesadas, o governo australiano estabelece um precedente: a escala global de uma empresa não a isenta das obrigações legais locais.

Para as big techs, o risco vai além das multas imediatas. Um país que demonstra disposição para investigar, punir e endurecer regras continuamente cria um ambiente de incerteza regulatória que afeta decisões de investimento, arquitetura de produtos e estratégia de dados. Outros mercados que observam o experimento australiano podem adotar modelos ainda mais rígidos caso os resultados mostrem que a pressão funciona.

O que muda para empresas que operam com tecnologia e dados?

Para empresas de tecnologia com operações em múltiplos países, o que está acontecendo na Austrália é um sinal de que o compliance regulatório em torno de dados de menores deixou de ser um tema periférico. A pressão sobre as plataformas vai criar demanda por soluções de verificação de idade mais robustas, sistemas de consentimento parental e auditorias de acesso por faixa etária.

A regulação de redes sociais para menores está se tornando, na prática, uma frente da regulação ampla de dados pessoais sensíveis. Empresas que anteciparem essa movimentação e investirem em conformidade proativa terão vantagem competitiva em mercados que, como a Austrália, optarem por enforcement real em vez de recomendações voluntárias.

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