Contato

Nesse Artigo

TRL, ou Technology Readiness Level, é a escala que mede o grau de maturidade de uma tecnologia, do princípio teórico à operação comercial. Entender em qual nível seu projeto está é o ponto de partida para acessar FINEP, EMBRAPII, Lei do Bem e outros instrumentos de fomento à inovação.
TRL Technology Readiness Level

TRL Technology Readiness Level: o que é a escala de maturidade tecnológica e como ela orienta projetos de inovação

Muitas empresas desenvolvem tecnologias inovadoras sem saber exatamente em que ponto do desenvolvimento estão. Isso gera desperdício de recursos, dificuldade na comunicação com parceiros e, com frequência, perda de oportunidades de acesso a fomentos. A escala TRL existe para resolver esse problema. Ela oferece uma linguagem comum para medir, comparar e comunicar o grau de maturidade de uma tecnologia, do princípio teórico até a operação comercial em ambiente real.


O que é TRL (Technology Readiness Level)?

TRL, sigla para Technology Readiness Level ou Nível de Maturidade Tecnológica, é uma escala padronizada que mede o grau de desenvolvimento de uma tecnologia. Composta por nove níveis, ela vai do TRL 1, que representa a observação de princípios básicos, até o TRL 9, que corresponde à tecnologia comprovada e operando em ambiente real. É utilizada por agências de fomento, centros de pesquisa e investidores para avaliar projetos de inovação de forma objetiva.


Como surgiu a escala TRL?

A metodologia foi criada por Stan Sadin, engenheiro da NASA, em 1974. O objetivo original era padronizar o acompanhamento do desenvolvimento de tecnologias no âmbito aeroespacial, onde os riscos técnicos de um projeto mal avaliado podem custar vidas e bilhões de dólares.

A consistência e a simplicidade do modelo fizeram com que ele fosse rapidamente adotado além da NASA. O Departamento de Defesa dos EUA incorporou a escala ainda nos anos 1980. A União Europeia a adotou como referência para o programa Horizonte Europa. No Brasil, FINEP, EMBRAPII, BNDES e CNPq passaram a utilizar o TRL como critério de avaliação e enquadramento de projetos, tornando o conhecimento da escala indispensável para qualquer empresa que busca acesso a recursos públicos de inovação.


Os 9 níveis de TRL explicados

A tabela abaixo resume cada nível da escala, do mais incipiente ao mais maduro:

NívelDescrição resumidaFase
TRL 1Princípios básicos observados e reportadosPesquisa básica
TRL 2Conceito tecnológico e/ou aplicação formuladaPesquisa básica
TRL 3Prova de conceito analítica e experimentalPesquisa aplicada
TRL 4Validação de componentes em laboratórioPesquisa aplicada
TRL 5Validação de componentes em ambiente relevanteDesenvolvimento
TRL 6Demonstração de protótipo em ambiente relevanteDesenvolvimento
TRL 7Demonstração de protótipo em ambiente operacionalDemonstração
TRL 8Sistema completo e qualificadoDemonstração
TRL 9Tecnologia comprovada em operação realProdução/Mercado

Os níveis 1 a 3 correspondem às fases de pesquisa básica e aplicada, onde ainda não há produto tangível. Os níveis 4 a 6 cobrem o desenvolvimento e a validação em laboratório e ambientes controlados. Já os níveis 7 a 9 representam a maturação do sistema até o produto final em operação.

O que distingue um nível do outro na prática?

A principal diferença entre níveis consecutivos é o ambiente de teste e o grau de integração do sistema. Passar do TRL 4 para o TRL 5, por exemplo, significa sair de uma validação em laboratório e levar a tecnologia para condições mais próximas do ambiente onde ela será efetivamente usada. Isso implica riscos técnicos maiores, maior esforço de engenharia e, em geral, mais recursos.


TRL na prática: como agências de fomento usam essa escala no Brasil?

No ecossistema brasileiro de inovação, o TRL não é apenas um conceito acadêmico. Ele é um critério operacional que define se um projeto pode ou não ser financiado, e por qual instrumento.

EMBRAPII

A EMBRAPII financia projetos de P&D com recurso não reembolsável exigindo que a tecnologia pleiteada esteja enquadrada entre os níveis 3 e 6 da escala TRL. A lógica é clara: a agência apoia projetos em estágio intermediário de desenvolvimento, que ainda não têm maturidade para ir ao mercado, mas que já superaram o estágio puramente teórico.

FINEP

A FINEP concede recursos reembolsáveis e não reembolsáveis com abrangências distintas por instrumento. Em programas como Inovacred e Tecnova, a indicação do TRL é obrigatória para o enquadramento do projeto, influenciando diretamente a modalidade de financiamento acessível.

Lei do Bem

A Lei do Bem (Lei 11.196/2005) permite que empresas deduzam do Imposto de Renda os gastos com P&D. Para se beneficiar do incentivo, as atividades devem, em regra, estar enquadradas entre os TRL 1 e TRL 7. Atividades de P&D retroativo podem ser admitidas até o TRL 8. O raciocínio por trás desse critério é que a lei busca incentivar a inovação ainda em desenvolvimento, não atividades que já resultaram em produto acabado e comercializado.

BNDES e outros instrumentos

O BNDES e demais agências de fomento também utilizam a escala TRL como ferramenta avaliativa no processo de aprovação de projetos. Ter o TRL bem mapeado pode ser, literalmente, o fator decisivo entre receber ou não o aporte.


Por que o TRL importa na jornada de inovação da sua empresa?

Conhecer o TRL do seu projeto não é uma exigência burocrática. É uma ferramenta de gestão que muda a forma como sua empresa toma decisões sobre inovação.

Clareza sobre onde você está. Sem uma avaliação objetiva de maturidade, gestores tendem a subestimar riscos técnicos ou a superestimar a prontidão de uma tecnologia. O TRL força uma avaliação honesta do que já foi comprovado e do que ainda precisa ser validado.

Comunicação entre equipes e parceiros. Quando todos usam a mesma escala, engenheiros, diretores financeiros e parceiros externos falam a mesma língua. A discussão sobre “o projeto está pronto?” deixa de ser subjetiva.

Acesso às oportunidades de fomento certas. Cada instrumento de financiamento tem uma faixa de TRL que financia. Saber onde seu projeto está permite identificar com precisão quais editais, chamadas e linhas de crédito se aplicam, evitando o desperdício de tempo em submissões que não têm chance de aprovação.

Planejamento de recursos mais preciso. A transição entre níveis de TRL exige esforços muito diferentes. Ir do TRL 3 ao TRL 4 é uma coisa; ir do TRL 6 ao TRL 7 pode demandar investimentos de outra ordem de grandeza. Mapear esses saltos com antecedência evita surpresas orçamentárias.


Variações da escala: MRL, STRL e adaptações setoriais

A escala TRL foi projetada para tecnologias de produto. Com o tempo, variações foram desenvolvidas para outros contextos:

  • MRL (Manufacturing Readiness Level): mede a maturidade do processo de manufatura associado à tecnologia. A EMBRAPII adota o MRL como escala complementar ao TRL em seus projetos.
  • STRL (Software Technology Readiness Level): voltado para o desenvolvimento de software, também adotado pela EMBRAPII para projetos de base digital.
  • Adaptações setoriais: o setor de óleo e gás, por exemplo, utiliza uma versão da escala TRL com 7 níveis, recomendada pela norma API RP 17Q em conjunto com a ISO 20815.

Essas variações mostram que o conceito de maturidade tecnológica é robusto o suficiente para ser adaptado, mas a lógica central permanece: medir e comunicar o progresso de uma tecnologia de forma padronizada.


Como mapear o TRL do seu projeto

Avaliar o TRL de um projeto não exige uma metodologia complexa, mas exige honestidade técnica. Um caminho estruturado:

  1. Descreva o estado atual da tecnologia com precisão, documentando o que já foi desenvolvido, testado e validado.
  2. Identifique o ambiente dos testes realizados — laboratório, ambiente simulado, ambiente relevante ou ambiente operacional real.
  3. Compare com os descritores de cada nível da escala (os documentos de referência da EMBRAPII e da NASA são boas fontes).
  4. Seja conservador na avaliação. Em caso de dúvida entre dois níveis, escolha o mais baixo. Superestimar o TRL prejudica o projeto na avaliação das agências de fomento.
  5. Documente os critérios usados. A argumentação que sustenta o nível atribuído é tão importante quanto o número em si, especialmente em submissões de projetos.
  6. Reavalie periodicamente. O TRL não é estático. À medida que o projeto avança, a reavaliação periódica garante que as decisões de investimento e as submissões a editais reflitam a realidade atual do desenvolvimento.

Por onde começar

Empresas que ainda não mapearam o TRL dos seus projetos de inovação costumam descobrir, ao fazer essa avaliação pela primeira vez, que estão em estágios diferentes do que imaginavam, seja mais avançadas do que percebiam em alguns projetos, seja com atividades que não se enquadram em instrumentos que estavam tentando acessar.

Esse diagnóstico é o ponto de partida de qualquer estratégia de P&D bem estruturada. Entender onde você está na escala TRL permite traçar um caminho realista de desenvolvimento, identificar os fomentos acessíveis em cada fase e evitar submissões mal direcionadas.

Se a sua empresa desenvolve projetos de inovação e ainda não tem clareza sobre o TRL de cada iniciativa, esse é um bom momento para fazer essa avaliação.