Uma pesquisa Ipsos-Ipec realizada entre 13 e 17 de junho de 2026, com 2 mil entrevistados em 130 municípios brasileiros, confirmou o que muitos já percebem no dia a dia: o Pix deixou de ser novidade para se tornar infraestrutura. Oito em cada dez brasileiros com 16 anos ou mais utilizam o sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central para transferências e pagamentos. O número, por si só, impressiona. Mas é o que está por trás dele que merece atenção.
Uma pesquisa, muitos sinais
O índice de 82% de adoção do Pix no Brasil não é apenas um dado de penetração de mercado. É um termômetro do estágio em que o ecossistema financeiro nacional se encontra. Lançado em novembro de 2020, o sistema substituiu boa parte das operações realizadas por TED, DOC e boleto bancário, tornando as transações mais rápidas, gratuitas para pessoas físicas e disponíveis 24 horas por dia, todos os dias da semana.
Para se ter dimensão do crescimento: ao final de 2025, o Brasil já contava com 70 milhões de heavy users, pessoas que realizam em média 30 transações por mês pelo Pix. Esse grupo cresceu 71% em relação a 2024, segundo levantamento da Febraban em parceria com a Deloitte. Em 2024, o sistema registrou mais de 62 bilhões de transações e movimentou mais de R$ 26 trilhões, superando a soma de cartões de crédito, débito, boletos e TEDs.
O que a adesão por faixa etária revela?
A distribuição do uso do Pix por geração é um dos recortes mais reveladores da pesquisa Ipsos-Ipec.
| Faixa etária | Uso do Pix |
|---|---|
| 16 a 34 anos | 94% |
| 35 a 44 anos | 90% |
| 45 a 59 anos | 81% |
| 60 anos ou mais | 48% |
Entre os mais jovens, o Pix é praticamente universal. Entre os mais velhos, a adesão cai pela metade. Essa diferença não é apenas comportamental: ela aponta para uma lacuna de familiaridade tecnológica e de hábitos financeiros construídos ao longo de décadas com outros instrumentos.
Por que a adesão cai entre os mais velhos?
A geração com 60 anos ou mais cresceu usando caixas físicos, talões de cheque e, mais tarde, cartões magnéticos. A migração para um sistema 100% digital, que exige smartphone, aplicativo bancário e gestão de chaves, representa uma mudança de paradigma, não apenas de ferramenta. Fatores como confiança em novas tecnologias, acesso a dispositivos adequados e suporte familiar ou institucional influenciam diretamente esses números.
Renda e região: o Pix como espelho do Brasil
A pesquisa também mapeou diferenças de renda e regionalidade que reforçam o papel do Pix como espelho das desigualdades do país.
Entre as pessoas com renda de até um salário mínimo, 70% usam o Pix. O percentual sobe para 80% entre quem ganha de um a dois salários mínimos e chega a 90% na faixa de dois a cinco salários. O dado é relevante: mesmo nas camadas de menor renda, o Pix já é maioria, o que confirma seu papel como ferramenta de inclusão financeira. A universalidade do acesso gratuito para pessoas físicas foi determinante para isso.
No recorte regional, a diferença é menor, mas existe:
- Sul: 84%
- Sudeste: 83%
- Norte e Centro-Oeste: 81%
- Nordeste: 80%
A relativa uniformidade regional, em um país com disparidades tão acentuadas, é em si um indicador de quanto o Pix conseguiu alcançar diferentes realidades econômicas e de infraestrutura digital.
O que esses números dizem sobre maturidade financeira?
Um ecossistema financeiro maduro não é aquele que oferece muitas opções de pagamento, mas aquele em que a população utiliza amplamente os instrumentos disponíveis, com confiança e de forma integrada ao cotidiano. O Pix atende a esse critério com folga.
Em setembro de 2025, o sistema já contava com mais de 890 milhões de chaves registradas e 177 milhões de usuários cadastrados no DICT (Diretório de Identificadores de Contas Transacionais). O volume de pagamentos via Pix em maquininhas de cartão cresceu 54% em 2025, ritmo muito superior ao registrado por cartões de débito e crédito no mesmo período.
Esses números indicam que o Brasil não apenas adotou um sistema de pagamentos instantâneos: construiu, em menos de seis anos, uma das infraestruturas de pagamentos mais utilizadas do mundo.
Um sistema que ainda tem espaço para crescer
Os 18% de brasileiros que ainda não usam o Pix representam um público com características específicas: maior concentração entre pessoas acima de 60 anos, faixas de renda mais baixas e, segundo outras pesquisas, preocupações com segurança e dificuldade de reembolso em caso de fraude.
Esse espaço de crescimento é também um desafio de política pública e de design de produto. Reduzir a lacuna geracional exige educação financeira digital, interfaces mais simples e suporte presencial. Ampliar a adesão nas faixas de menor renda requer acesso a dispositivos e conectividade.
O Pix chegou a 82% dos brasileiros em menos de seis anos. Chegar aos próximos 18% vai exigir um esforço diferente, mais próximo das pessoas e menos dependente apenas da tecnologia.





