Dois dos maiores players tecnológicos da Ásia anunciaram, em movimentos distintos mas convergentes, planos bilionários para acelerar o desenvolvimento da inteligência artificial. China e Coreia do Sul estão apostando em infraestrutura, semicondutores e autonomia tecnológica como pilares da próxima fase da corrida global pela IA, e os números revelam a dimensão dessa aposta.
China: inteligência artificial como política de Estado
A China passou a tratar a inteligência artificial como base de uma nova etapa de desenvolvimento econômico. O relatório de trabalho do governo apresentado nas “duas sessões” de 2026 introduziu, pela primeira vez, o conceito de “economia inteligente”, orientando a aplicação da tecnologia em larga escala na indústria, nos serviços e na infraestrutura digital do país.
Em termos práticos, o governo chinês planeja investir cerca de 2 trilhões de yuans, aproximadamente US$ 295 bilhões, na construção de data centers voltados à IA ao longo dos próximos cinco anos. A meta é criar uma rede nacional de centros de computação distribuídos por diferentes regiões do país, com capacidade suficiente para o treinamento e a operação de modelos avançados.
O tamanho da indústria já impressiona: segundo o ministro da Indústria e Tecnologia da Informação, Li Lecheng, a indústria central de inteligência artificial chinesa superou 1,2 trilhão de yuans (cerca de US$ 174 bilhões) em 2025 e reúne mais de 6.200 empresas. O novo plano quinquenal (2026-2030) prevê avanços em sistemas multimodais, agentes de IA e inteligência coletiva.
Há também uma diretriz clara de autonomia tecnológica: a expectativa é que ao menos 80% dos componentes dos novos data centers, incluindo chips de IA, sejam fornecidos por empresas chinesas, como a Huawei, reduzindo a dependência de fabricantes estrangeiros como Nvidia e AMD. O orçamento para ciência e P&D deve chegar a 426 bilhões de yuans (aproximadamente US$ 62 bilhões) em 2026, um aumento de 10% em relação a 2025.
Coreia do Sul: o maior investimento da sua história em IA
Anunciado nesta segunda-feira, 29 de junho de 2026, o plano sul-coreano é o terceiro mega-investimento em IA do país em menos de um ano e, de longe, o mais significativo. O governo de Seul apresentou um pacote de investimentos que soma mais de US$ 1,2 trilhão, envolvendo semicondutores e data centers voltados à inteligência artificial.
Na frente de semicondutores, Samsung Electronics e SK Hynix farão um investimento conjunto de 800 trilhões de wons (cerca de US$ 520 bilhões) em um novo polo de fabricação localizado no sudoeste do país, com quatro novas fábricas planejadas. Em paralelo, o país pretende construir novos centros de dados de IA até 2035, elevando a capacidade total instalada para 18,4 gigawatts, com investimento adicional de aproximadamente US$ 650 bilhões.
A Naver Corp., referência tecnológica local, liderará um projeto de expansão de infraestrutura de IA para construir 8,4 gigawatts de capacidade em data centers até 2029. Jensen Huang, presidente da Nvidia, esteve recentemente em Seul e anunciou o fornecimento de 260 mil chips avançados ao país para impulsionar a adoção industrial da tecnologia.
O presidente Lee Jae Myung resumiu a urgência da estratégia: “A velocidade é o único caminho para sobreviver. Precisamos garantir os elementos centrais da inteligência artificial mais rápido do que qualquer outro país.”
O que China e Coreia do Sul têm em comum nessa estratégia?
Apesar das diferenças de modelo econômico, os dois países compartilham uma lógica parecida na aposta pela IA:
- Foco em infraestrutura física: data centers, chips e capacidade de processamento como prioridade antes de aplicações.
- Protagonismo estatal: os governos lideram o planejamento e, em diferentes graus, o financiamento dos projetos.
- Autonomia tecnológica: ambos buscam reduzir a dependência de componentes e tecnologias estrangeiras, especialmente americanas.
- Supervisão regulatória em expansão: o desenvolvimento acelerado vem acompanhado de iniciativas de governança, com ênfase no controle humano sobre os sistemas.
- Integração público-privada: gigantes como Samsung, SK Hynix, Huawei e Naver estão no centro da execução dos planos.
O que essa corrida significa para o mercado global de IA
O AI Index 2026, publicado pela Universidade Stanford, registrou que a lacuna de desempenho entre sistemas americanos e chineses praticamente desapareceu, com modelos dos dois países se alternando no topo dos rankings de referência. O modelo Qwen, da Alibaba, tornou-se o mais baixado na plataforma Hugging Face em janeiro de 2026, com 700 milhões de downloads, superando em volume a soma dos oito modelos seguintes na lista, incluindo sistemas da Meta e da OpenAI.
Esse movimento coloca China e Coreia do Sul em um patamar de investimento semelhante ao de grandes empresas americanas como Microsoft e Meta, que também ampliaram seus aportes em infraestrutura de IA. Segundo projeções citadas pela Reuters, as principais empresas americanas de tecnologia devem investir mais de US$ 700 bilhões apenas em 2026 para expandir suas infraestruturas.
A corrida está só começando
O que os planos de China e Coreia do Sul deixam claro é que a disputa pela liderança em inteligência artificial não se resolve apenas com modelos mais potentes ou interfaces mais sofisticadas. A base da competição está na capacidade de processar, armazenar e operar sistemas de IA em escala, e é nesse terreno que os investimentos bilionários estão sendo feitos agora. Para empresas e governos ao redor do mundo, acompanhar esse movimento deixou de ser opcional.





