A Reforma Tributária do consumo, formalizada pela Emenda Constitucional nº 132/2023, deixou de ser um debate conceitual e passou a influenciar decisões concretas de investimento, expansão e reorganização operacional nas empresas brasileiras. A partir de 2026, inicia-se a fase de transição para o modelo de IVA dual, composto por IBS e CBS, o que exige uma leitura mais estratégica do ambiente tributário antes da alocação de capital.
Esse cenário tem sido destacado por executivos que acompanham a implementação da reforma de perto. Como observa Fabrizio Gammino, co-CEO da Grownt, “a Reforma Tributária, por muito tempo uma promessa distante, já é uma realidade iminente. O ano de 2026 marcará o início da transição para o novo sistema de IVA dual (IBS e CBS), e as empresas que ainda não iniciaram seu planejamento estão em uma corrida contra o tempo”. A afirmação reforça que decisões de investimento tomadas sem essa variável tendem a carregar riscos adicionais.
A principal mudança estrutural está na substituição de tributos cumulativos por um modelo de crédito financeiro mais amplo, o que afeta diretamente formação de preços, margens operacionais, contratos e fluxo de caixa. Embora o desenho final das alíquotas ainda esteja em consolidação, o impacto operacional já é conhecido e precisa ser considerado no planejamento estratégico.

A afirmação reforça que decisões de investimento tomadas sem essa variável tendem a carregar riscos adicionais.
A principal mudança estrutural está na substituição de tributos cumulativos por um modelo de crédito financeiro mais amplo, o que afeta diretamente formação de preços, margens operacionais, contratos e fluxo de caixa. Embora o desenho final das alíquotas ainda esteja em consolidação, o impacto operacional já é conhecido e precisa ser considerado no planejamento estratégico.
O papel do cronograma da reforma nas decisões de investimento
O ano de 2026 funcionará como um período de testes, com alíquotas iniciais reduzidas de CBS e IBS e foco no cumprimento das obrigações acessórias. Para projetos de investimento, isso desloca a atenção da carga tributária imediata para a capacidade da empresa de operar corretamente no novo modelo, com sistemas preparados, cadastros revisados e processos fiscais integrados.
Empresas que planejam expansão, abertura de novas unidades, digitalização de canais ou aquisições precisam avaliar se seus sistemas de ERP, faturamento e controle fiscal estão aptos a lidar com a nova lógica de apuração, baseada fortemente na nota fiscal eletrônica e na rastreabilidade das operações.
Variáveis estratégicas que precisam entrar no cálculo
Tomar decisões de investimento com mais segurança durante a transição tributária passa por responder a algumas perguntas-chave. O modelo de negócio tende a gerar acúmulo de créditos ou maior recolhimento? A operação envolve diferentes estados ou municípios, alterando a lógica de tributação no destino? O retorno do investimento depende de ressarcimento rápido de créditos para sustentar o capital de giro?
Além disso, mecanismos como o split payment, discutidos na regulamentação, podem alterar o momento do recolhimento dos tributos e pressionar o caixa em operações com margens mais estreitas. Ignorar esses efeitos pode comprometer a viabilidade financeira de projetos que, à primeira vista, parecem sólidos.
Planejamento estratégico como ferramenta de redução de risco
Em vez de trabalhar com uma única projeção, empresas mais preparadas têm adotado simulações de cenários, combinando variáveis tributárias, operacionais e financeiras. Essa abordagem permite avaliar como mudanças na dinâmica de créditos, na precificação e no fluxo de caixa afetam o retorno esperado do investimento ao longo do período de transição, que se estende até 2033.
Nesse contexto, o planejamento estratégico deixa de ser apenas um exercício de crescimento e passa a funcionar como uma ferramenta de proteção do negócio. Incorporar a Reforma Tributária desde a fase de análise dos investimentos ajuda a reduzir incertezas, antecipar ajustes e sustentar decisões mais consistentes em um ambiente regulatório em transformação
Entenda o cronograma que impacta o seu CAPEX e o seu caixa
O planejamento de investimentos precisa considerar que 2026 é o ano de testes de CBS e IBS. A Receita Federal descreve alíquotas “de prova” de 0,9% (CBS) e 0,1% (IBS) e indica que o recolhimento pode ser dispensado para quem cumprir as obrigações acessórias aplicáveis, além de prever compensação com valores de PIS e Cofins no período.
Esse detalhe muda o foco do gestor em 2026: menos discussão sobre carga efetiva e mais atenção a capacidade operacional, pois emitir documentos fiscais com os campos corretos, adequar cadastros e validar integrações passa a ser parte do “go-live” de qualquer investimento relevante.
Também vale observar que a regulamentação ganhou corpo com a Lei Complementar nº 214/2025, que institui IBS, CBS e Imposto Seletivo e cria o Comitê Gestor do IBS.
O que muda na conta do investimento: quatro perguntas objetivas
Para avaliar investimentos com segurança durante a transição, use um roteiro que conecte estratégia e tributação sem exigir um nível “hipertécnico”:
- Meu modelo de negócio tende a acumular créditos ou débitos no IVA?
Empresas com alto volume de insumos e investimentos em ativo podem ter dinâmica de crédito relevante, o que altera o custo financeiro do crescimento. - O investimento altera o “local de consumo” e, portanto, a tributação no destino?
Mudanças de canal (e-commerce, marketplace, entrega rápida, cross-docking) podem deslocar onde a operação é considerada consumida e como a empresa organiza compliance e precificação. - O projeto depende de ressarcimento rápido de créditos para fechar a TIR?
A regulamentação discute mecanismos de compensação e ressarcimento e prazos de apreciação, que são variáveis que impactam o capital de giro quando o volume de crédito cresce. - Meus sistemas suportam o nível de rastreabilidade exigido?
O novo modelo traz forte dependência de documento fiscal eletrônico e integração com apuração, recolhimento e, em alguns casos, liquidação financeira.
Split payment e risco de capital de giro: onde o planejamento precisa ser mais conservador
Um ponto que merece atenção estratégica é o split payment, modelo em que o recolhimento pode ocorrer no momento da liquidação financeira, reduzindo espaço para erros e inadimplência na cadeia, mas também mudando o “timing” de caixa.
Para decisões de investimento, a implicação é direta: projetos que já pressionam capital de giro (crescimento acelerado, aumento de sortimento, expansão geográfica, prazo maior para cliente) precisam rodar cenários com uma visão mais conservadora de liquidez. Aqui, “segurança” significa testar o investimento não só na margem, mas em caixa diário.
Como traduzir a reforma em decisões práticas de investimento
Cenários e gatilhos, em vez de previsões únicas
Em vez de “tentar adivinhar” a alíquota final do seu setor, desenhe 3 cenários para cada investimento:
- cenário base com parâmetros atuais e transição operacional em 2026,
- cenário de pressão de caixa (crédito acumulado, ressarcimento mais lento),
- cenário de melhoria operacional (maior acurácia fiscal, automação e redução de retrabalho).
A própria discussão pública sobre alíquota de referência mostra a preocupação com nível de carga e revisões, incluindo avaliação quinquenal e referência de 26,5% em projeções para 2033 na apresentação do Ministério da Fazenda.
Due diligence tributária em projetos de expansão e M&A
Em aquisições e expansão, inclua no checklist:
- qualidade de cadastro fiscal e de NCM/serviços,
- aderência a documentos fiscais eletrônicos exigidos na fase de testes,
- maturidade de ERP, fiscal e billing,
- exposição a regimes específicos e exceções do setor.
Agenda de preparação que “protege” as decisões
Se você precisa priorizar ações que melhoram a segurança das decisões em 2026, uma sequência eficiente costuma ser:
- Mapeamento de receitas e custos por tipo de operação, produto, canal e UF/município, para identificar onde a empresa ganha ou perde com mudanças de regra.
- Revisão de contratos e cláusulas de reajuste tributário, especialmente em contratos longos, B2B e serviços recorrentes.
- Plano de adequação de sistemas e governança de dados, com foco em cadastros, classificação fiscal e integração de emissão fiscal, pois 2026 exige conformidade operacional para atravessar o “ano teste” com controle.
- Simulações de caixa e capital de giro, incorporando hipóteses de crédito, compensação e recolhimento na liquidação (quando aplicável).
Um indicativo de escala e complexidade é que a própria regulamentação foi estruturada com volume elevado de artigos e consolidação normativa, refletindo o tamanho do esforço de implementação.
Em tempos de Reforma Tributária, o planejamento estratégico ganha um componente muito concreto: investir com segurança passa por tratar tributação, dados e operação como premissas do projeto, não como ajustes no final. Com a EC 132/2023 e a LC 214/2025 definindo a nova arquitetura e 2026 funcionando como ano de testes de CBS e IBS, a empresa que organiza cenários, prepara sistemas e governa o impacto no caixa tende a reduzir risco de execução e tomar decisões com mais previsibilidade.






