A análise dos dados globais de patentes em tecnologias habilitadoras da transição energética mostra que a liderança tecnológica está fortemente associada à adoção de políticas de pesquisa e desenvolvimento estruturadas para o longo prazo. Países que ampliaram sua participação no registro de patentes não o fizeram apenas por vantagens naturais ou conjunturais, mas por decisões estratégicas que conectaram inovação, política industrial e objetivos de competitividade. Para o Brasil, que apresentou retração no volume de patentes após 2011, esse panorama oferece referências concretas sobre como políticas de P&D podem influenciar a retomada da inovação energética.
Entre 2000 e 2024, o crescimento global de patentes foi sustentado por poucos países, com destaque para China, Estados Unidos e Japão. A leitura comparativa desses casos ajuda a identificar caminhos possíveis para adaptar instrumentos de política pública às necessidades nacionais.
O que os líderes globais têm em comum
Apesar das diferenças institucionais, os países que lideram patentes de energia limpa compartilham alguns elementos centrais em suas políticas de P&D. Um deles é a continuidade. Programas de financiamento à pesquisa, incentivos à inovação e apoio à proteção de propriedade intelectual foram mantidos ao longo de vários anos, permitindo que ciclos longos de desenvolvimento tecnológico se consolidassem.
Outro ponto recorrente é a articulação entre pesquisa e aplicação. Nos países líderes, políticas de P&D estão conectadas a estratégias industriais, o que facilita a transformação de conhecimento em produtos, processos e soluções com potencial de mercado. Esse vínculo contribui para o aumento do número de patentes e para a formação de cadeias produtivas associadas às tecnologias da transição energética.
A experiência chinesa e a importância do planejamento
A China ampliou rapidamente sua participação em patentes de energia limpa e assumiu a liderança global a partir de 2008, acumulando mais de 5 milhões de registros entre 2000 e 2024. Esse avanço foi apoiado por planejamento de longo prazo, definição clara de setores prioritários e políticas de inovação alinhadas a metas industriais e energéticas.
Para o Brasil, o caso chinês reforça a importância de tratar a transição energética como tema estratégico de Estado, com instrumentos que ultrapassem ciclos curtos e garantam previsibilidade para universidades, empresas e centros de pesquisa. A previsibilidade é um fator relevante para estimular investimento privado e sustentar esforços contínuos de P&D.
Estados Unidos e Japão: diversidade e consistência institucional
Nos Estados Unidos, a inovação em energia limpa é sustentada por um ecossistema diversificado, que envolve universidades, empresas, laboratórios nacionais e investidores. Políticas públicas de financiamento à pesquisa, combinadas com proteção robusta da propriedade intelectual, criaram um ambiente favorável à geração constante de patentes.
O Japão, por sua vez, manteve posição relevante ao longo de décadas com políticas voltadas à eficiência, à melhoria de processos e à integração entre indústria e pesquisa. A consistência institucional e a coordenação entre governo e setor produtivo ajudaram a preservar capacidade tecnológica mesmo diante de mudanças no cenário global.
Esses exemplos mostram que não há um único modelo, mas que a estabilidade de políticas de P&D e a valorização da inovação aplicada são fatores comuns aos países líderes.
O que os dados sugerem para o Brasil
O Brasil aparece na décima posição no ranking global de patentes de tecnologias ligadas à transição energética, com cerca de 70 mil registros entre 2000 e 2024, o equivalente a 0,8% do total mundial. O país teve crescimento até o início da década de 2010, seguido por retração persistente. Ao mesmo tempo, o perfil setorial brasileiro permanece alinhado às tendências globais, com concentração em energia elétrica, indústria e transporte.
Esse conjunto de dados sugere que o desafio brasileiro não está na escolha das áreas tecnológicas, mas na sustentação de políticas de P&D capazes de manter ritmo e escala. A comparação com os líderes globais indica que instrumentos mais estáveis, coordenação interinstitucional e incentivos claros à proteção de propriedade intelectual podem contribuir para reverter a retração observada.
O short study apresenta esses dados de forma integrada, permitindo visualizar como a trajetória brasileira se distancia do crescimento global ao longo do tempo.
Baixe o short study para acessar a comparação entre Brasil e líderes globais e apoiar decisões estratégicas em inovação energética.
Diretrizes estratégicas para políticas de P&D no Brasil
Com base na experiência internacional e nos dados históricos, algumas diretrizes ganham destaque para o contexto brasileiro. Entre elas estão o fortalecimento de programas de P&D energético com horizonte de médio e longo prazo, a integração entre política de inovação e estratégia industrial, e o estímulo à transformação de pesquisa em patentes por meio de estruturas de apoio à propriedade intelectual.
Também é relevante ampliar a coordenação entre diferentes níveis de governo e entre setor público e privado, criando condições para que universidades, institutos e empresas atuem de forma mais integrada. Esses fatores não garantem resultados imediatos, mas aumentam a probabilidade de retomada gradual e sustentada da inovação em tecnologias habilitadoras da transição energética.






