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A integração entre áreas técnica, fiscal e contábil é um dos principais fatores para a boa utilização da Lei do Bem, pois garante rastreabilidade, consistência de critérios e qualidade das evidências exigidas no FORMP&D. Modelos operacionais como núcleo central, hub-and-spoke e controladoria embarcada ajudam a organizar responsabilidades, reduzir retrabalho e evitar ajustes de última hora, desde que acompanhados de um RACI claro, cadência periódica de revisão e controles simples, como centros de custo bem definidos e conciliações regulares. Quando essa integração funciona, o preenchimento do formulário deixa de ser um esforço isolado e passa a refletir processos já maduros de governança de P&D e gestão fiscal.
integração entre áreas técnica, fiscal e contábil na Lei do Bem

Integração entre áreas técnica, fiscal e contábil na Lei do Bem: modelos operacionais que funcionam 

A Lei do Bem, prevista na Lei nº 11.196/2005, é um dos principais instrumentos de incentivo fiscal à inovação no Brasil e depende menos de “ter projetos” e mais de provar, com consistência técnica e financeira, o que foi feito, quanto custou, como foi contabilizado e como se conecta ao benefício utilizado. Em 2023, segundo dados divulgados pelo MCTI, 3.878 empresas utilizaram o incentivo, com investimentos próximos de R$ 42 bilhões em P&D e renúncia fiscal em torno de R$ 9 bilhões, números que ajudam a explicar por que os processos de comprovação e governança ganharam tanta relevância.  

Este texto apresenta modelos operacionais e práticas de integração entre área técnica (P&D e engenharia), fiscal (tributário) e contábil (controladoria) que costumam reduzir retrabalho, melhorar rastreabilidade e sustentar o preenchimento do FORMP&D com evidências consistentes. 

Por que a integração falha na prática

Em muitas empresas, a Lei do Bem “mora” em uma única área. Quando isso acontece, surgem padrões previsíveis: 

  1. A área técnica descreve o projeto, mas não define critérios de elegibilidade e recorte do escopo com antecedência, o que dificulta associar dispêndios aos resultados e às incertezas técnicas que caracterizam P&D. 
  1. O fiscal calcula o benefício em cima de números fechados, sem visibilidade das premissas, dos centros de custo, da política de capitalização versus despesa, ou de mudanças de escopo no meio do ano. 
  1. A contabilidade fecha o mês para fins societários e gerenciais, mas sem amarrações específicas para rastrear dispêndios de P&D de forma auditável no nível exigido para o FORMP&D. 

O resultado costuma ser um ciclo de “corrida” perto do prazo, com coleta de evidências tardia, inconsistência entre narrativas técnicas e números, e dificuldade de responder a diligências. 

O que precisa estar integrado

O objetivo da integração não é criar burocracia, é garantir três coisas: 

  • Rastreabilidade: do projeto ao dispêndio e do dispêndio ao lançamento contábil, com trilha de auditoria. 
  • Consistência de critérios: o que é classificado como P&D para Lei do Bem precisa ser entendido e aplicado de forma uniforme pelas áreas. 
  • Evidência organizada para o FORMP&D: o MCTI publica guias e orientações do sistema e do formulário, e isso exige preparação contínua, não apenas no fechamento anual.  

Três modelos operacionais que costumam funcionar 

1) Modelo “núcleo central” (PMO/CoE de Lei do Bem) 

Quando funciona melhor: empresas com vários times técnicos, múltiplas unidades e alto volume de iniciativas. 

Como é: um núcleo central (Centro de Excelência ou PMO de incentivos) coordena o processo, define padrões, mantém templates e faz a ponte entre técnico, fiscal e contábil. 

Pontos fortes: 

  • padroniza linguagem e evidências, 
  • cria base histórica de projetos e aprendizados, 
  • melhora previsibilidade de números e prazos. 

Risco a gerenciar: virar gargalo se o núcleo central concentrar execução em vez de governança. 

Boa prática: o núcleo central “orquestra e revisa”, enquanto áreas técnicas “produzem evidências” e contabilidade/fiscal “validam e fecham”. 

2) Modelo “hub-and-spoke” (ponto focal por área técnica) 

Quando funciona melhor: empresas médias, com squads e produtos, onde projetos são distribuídos. 

Como é: cada área técnica tem um ponto focal (spoke) responsável por manter projetos e evidências em dia, conectado a um hub corporativo (fiscal/contábil/gestão de inovação). 

Pontos fortes: 

  • acelera coleta de evidências ao longo do ano, 
  • reduz dependência de uma única pessoa, 
  • aproxima a narrativa técnica da realidade do time. 

Risco a gerenciar: divergência de critérios entre spokes. 

Boa prática: treinamento semestral e checklists únicos, com revisão amostral do hub. 

3) Modelo “controladoria embarcada” (controller de P&D por portfólio) 

Quando funciona melhor: empresas com investimentos relevantes em P&D e necessidade de granularidade financeira. 

Como é: a controladoria designa um controller (ou analista financeiro) por portfólio técnico, responsável por centro de custo, estrutura analítica, políticas de apropriação e conciliações. 

Pontos fortes: 

  • melhora a qualidade dos dados na origem, 
  • reduz ajustes de última hora, 
  • facilita conciliações entre contábil, fiscal e relatórios gerenciais. 

Risco a gerenciar: custo de estrutura se a empresa não tem escala. 

Boa prática: começar com embarque parcial, por portfólios de maior materialidade. 

RACI mínimo para evitar ruído entre áreas 

Um RACI simples costuma resolver boa parte do conflito de “quem faz o quê”. 

  • Técnico (P&D/Engenharia): responsável por escopo, objetivos, incertezas técnicas, marcos, evidências de execução, alocação de horas e validação de despesas diretamente ligadas aos projetos. 
  • Contábil/Controladoria: responsável por plano de contas, centros de custo, critérios de capitalização/expense, conciliações, travas de fechamento e trilha de auditoria. 
  • Fiscal/Tributário: responsável por regras do benefício, cálculo, enquadramento, memórias de cálculo, suporte a riscos e governança tributária. 
  • Jurídico/Compliance (quando aplicável): consultado para políticas, retenção documental, LGPD, contratos com terceiros e risco regulatório. 
  • Patrocínio (CFO/CTO): accountable por priorização e resolução de impasses. 

Cadência operacional: o que rodar no mês, no trimestre e no ano

Mensal 

  • atualização de centros de custo e lançamentos relacionados a P&D, 
  • conciliação entre horas apontadas (timesheets ou estimativas documentadas) e custos reconhecidos, 
  • captura de evidências leves: atas de revisão técnica, repositórios, registros de testes, relatórios de sprint. 

Trimestral 

  • revisão de elegibilidade e escopo (o que entrou, mudou ou saiu), 
  • validação de fornecedores e contratos ligados aos projetos, 
  • checagem de “qualidade de dossiê” por amostragem, para evitar que o P&D vire um projeto paralelo. 

Anual 

  • fechamento de portfólio de projetos com narrativa consolidada, 
  • consolidação de dispêndios e memórias de cálculo, 
  • preenchimento e submissão do P&D, seguindo orientações e campos do sistema.  

Controles e artefatos que mais reduzem retrabalho 

  1. Matriz de projetos com ID único, vinculado a centro de custo e responsáveis técnicos. 
  1. Dicionário de dispêndios elegíveis, com exemplos internos de como a empresa classifica cada tipo de gasto. 
  1. Checklist de evidências por tipo de projeto, com itens mínimos e itens recomendados. 
  1. Conciliação “3 vias”: relatório gerencial de P&D, razão contábil e base fiscal do benefício. 
  1. Política de retenção documental, com prazos e repositório único, para responder a diligências de forma rápida. 

Sinais de que seu modelo está funcionando 

  • O P&D deixa de ser “força-tarefa” e vira consequência de uma rotina. 
  • A empresa consegue explicar diferenças entre orçamento e realizado com rastreabilidade. 
  • Fiscal e contabilidade não precisam “reclassificar” grandes blocos perto do prazo. 
  • A área técnica reconhece que a documentação serve para governança, não apenas para o benefício. 

A Lei do Bem é um tema multidisciplinar por natureza, porque conecta narrativa técnica, disciplina contábil e memória fiscal. Quando a empresa escolhe um modelo operacional adequado ao seu porte e cria uma cadência simples com RACI claro, os benefícios tendem a aparecer em duas frentes: melhor qualidade do dossiê e menor custo interno para sustentar o incentivo ao longo do tempo. Para quem está revisando processos agora, vale usar os guias do FORMP&D e as orientações do MCTI como referência de exigência documental e transformar isso em rotina anual, e não em esforço pontual. 

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