A ISO 56002:2019 é uma norma de diretrizes voltada à estruturação de um sistema de gestão da inovação. Seu objetivo é apoiar organizações na criação, manutenção e melhoria contínua de práticas que conectem estratégia, cultura, processos, recursos e avaliação de desempenho ligados à inovação.
Um ponto central da norma é a flexibilidade. A ISO 56002 não define ferramentas obrigatórias nem exige uma implementação completa desde o início. Ela foi desenhada para ser aplicada de forma progressiva, considerando porte, setor, nível de maturidade e contexto competitivo da organização. Essa característica é o que permite aplicar a norma sem transformá-la em um conjunto rígido de procedimentos.
Onde a ISO 56002 costuma gerar burocracia
A burocratização geralmente não vem da norma em si, mas da forma como ela é interpretada internamente. Os problemas mais recorrentes são:
- Escopo amplo demais logo no início, com tentativas de padronizar toda a empresa antes de validar o modelo em um contexto controlado.
- Governança excessiva, baseada em múltiplos comitês e ritos de aprovação pouco objetivos, que atrasam decisões e reduzem o ritmo.
- Ênfase excessiva em documentação, com relatórios longos que não apoiam decisões nem aprendizado.
A própria ISO 56002 orienta que o sistema de gestão da inovação seja ajustado continuamente, o que pressupõe começar simples, medir resultados e evoluir conforme o aprendizado.
Como aplicar a ISO 56002 de forma prática e proporcional
1) Defina a intenção de inovação e seus limites
A norma reforça a necessidade de direção estratégica clara. Na prática, isso pode ser traduzido em poucas teses de inovação, alinhadas aos objetivos do negócio, e em limites bem definidos de escopo, risco e investimento. Um documento curto, de uma página, costuma ser suficiente para orientar decisões ao longo do portfólio.
2) Comece com um escopo reduzido
Em vez de desenhar um sistema corporativo completo, escolha um recorte inicial, como uma unidade de negócio, um processo crítico ou um tipo específico de inovação. Esse piloto permite testar governança, fluxo e métricas em poucas semanas, reduzindo resistência interna e ajustes posteriores.
3) Estruture um pipeline simples de inovação
A ISO 56002 trabalha com a lógica de ciclo e evolução. Um pipeline com poucas etapas, como oportunidade, conceito, validação, desenvolvimento e implantação, tende a funcionar melhor do que modelos complexos. Cada etapa deve ter critérios objetivos de avanço e decisões claras de continuidade ou encerramento.
4) Estabeleça governança proporcional ao risco
Governança leve não significa ausência de controle, mas controle adequado ao nível de incerteza e investimento. Uma prática comum é definir alçadas de decisão distintas para experimentos de baixo custo, iniciativas intermediárias e apostas estratégicas. Ritos curtos e regulares, com critérios claros de priorização, reduzem dependência de aprovações excessivas.
5) Padronize apenas a documentação necessária
A documentação deve apoiar decisões e aprendizado, não cumprir formalidades. Em geral, poucos artefatos são suficientes, como um canvas de oportunidade, um plano simples de experimento e um resumo de resultados e aprendizados. Esse padrão reduz retrabalho e facilita a reutilização do conhecimento gerado.
6) Use métricas que melhorem o sistema
A ISO 56002 orienta a avaliação de desempenho como base para melhoria contínua. Métricas operacionais, como tempo para validação de hipóteses, taxa de avanço do portfólio e resultados incorporados ao negócio, costumam ser mais úteis do que indicadores puramente quantitativos de volume de ideias.
Diagnóstico de maturidade antes de escalar
Antes de expandir o sistema de gestão da inovação, é recomendável realizar um diagnóstico rápido de maturidade, avaliando práticas existentes, lacunas e prioridades. Esse tipo de avaliação ajuda a direcionar investimentos e evitar a criação de estruturas desnecessárias. Na família ISO 56000, há orientações específicas para apoiar esse tipo de análise, sempre com foco em pragmatismo.
Parcerias e propriedade intelectual no contexto da ISO 56002
À medida que a maturidade aumenta, o sistema pode incorporar temas complementares, como parcerias de inovação com universidades, startups e fornecedores, e decisões básicas de propriedade intelectual. A ISO trata esses assuntos como capacidades que podem ser integradas ao sistema quando fizerem sentido estratégico, sem exigir processos complexos desde o início.
Papéis mínimos para evitar ruído organizacional
Mesmo em estruturas enxutas, alguns papéis ajudam a reduzir burocracia:
- Sponsor executivo, responsável por direcionamento e desbloqueios estratégicos.
- Responsável pelo portfólio, que prioriza iniciativas e alocação de recursos.
- Donos de iniciativas, focados em hipóteses, experimentação e entrega.
Essa clareza reduz a necessidade de múltiplos fóruns decisórios.
Como saber se a ISO 56002 está funcionando na prática
Um bom sinal de aplicação consistente da ISO 56002 é a capacidade de responder, com dados simples, a perguntas como: quais são as prioridades de inovação, onde estão os investimentos, quais hipóteses já foram validadas e quais iniciativas geraram resultados concretos. Quando essas respostas existem sem excesso de ritos e documentos, o sistema tende a estar bem calibrado.
Aplicar a ISO 56002 sem virar burocracia depende menos da norma e mais das escolhas de implementação. Escopo controlado, governança proporcional, documentação mínima e métricas orientadas a decisão transformam o sistema de gestão da inovação em uma capacidade operacional contínua, integrada ao negócio e adaptável ao longo do tempo.




